Compartilhar experiências sobre
relacionamentos é tentador! Aconselhar as amigas, analisar as situações
apresentadas por elas e dar dicas de como agiríamos se estivéssemos no lugar
delas é um hábito tipicamente feminino. Já perdi a conta de quantos leitores,
homens e mulheres (conhecidos e desconhecidos), relataram-me seus dramas e
questionaram-me sobre como prosseguir. Confesso que já pequei em muitas
situações, dando conselhos sobre os quais acabei passando por cima, quando a
protagonista do dilema era eu. Sem falar nas mudanças de opinião, acerca de ideias
que um dia pensei ter convicção. A frase é batida, porém verdadeira: relacionamentos
não são ciências exatas; portanto, é mais seguro deixar os “achismos” guardados
em nossas cabecinhas pensantes, ao invés de bancar os especialistas e sair
dando conselhos por aí. Como exemplos de teorias altamente contestáveis, cito
abaixo cinco muito comuns nas mesas redondas sobre relacionamentos:
1)
Não
vou namorar (nem o Brad Pitt, se ele quiser); estou num momento de curtir e
nada mais.
Esse é um dos
maiores equívocos que podemos cometer, até porque namoro é o tipo de coisa que
não se planeja. Quem sai à caça de um namorado só pode estar fora do juízo. Atirar
para todos os lados é típico de quem quer encher a infinita linguiça da vida e
nada mais. Amarrar-se ao primeiro ser “pegável” é sintoma de carência, exaustão
por viver na balada atrás de um rabo de saia ou ânsia de se “encostar” em
alguém que possa suprir suas necessidades financeiras (acredite: isso existe;
quem leu o texto sobre as alpinistas sociais, publicado
há alguns meses, sabe do que estou falando). Quem se sente bem na própria
pele não se contenta com relações mornas, sustentadas na companhia de pessoas mais
ou menos. Compromissos dão trabalho; por que alguém assumiria um se não
houvesse compensação? O comprometimento deve ser uma consequência da vontade de
estar junto, da química e de um conjunto de afinidades ou outros bons motivos
que, quando surgem, são facilmente perceptíveis. Em pouco tempo, torna-se simples
identificar o que não passa de uma aventura e o que pode ter futuro. Não existe
momento para curtir ou namorar – existem, sim, pessoas para curtir ou namorar. Se está há meses com alguém e não
sente vontade de dar um passo adiante, pode escrever: o lance está com os dias
contados. Quando é para rolar, nenhum empecilho é forte o suficiente – nem
mesmo o fato de um dos dois envolvidos estar de mudança para Cochabamba. Se o
cara vier com papo furado, alegando ter-se separado recentemente, estar
trabalhando demais, estudando para um concurso dificílimo ou coisa parecida, desencane!
Uma amiga foi vítima dessa conversa e, poucos dias depois, lá estava o palhaço
“em um relacionamento sério” no Facebook. Com outra, é claro!
2)
Nunca
lavarei cueca de homem nenhum!
Desde quando
lavar cueca torna uma mulher pior? Pois é, já critiquei muitas delas por isso.
Num passado não muito distante, considerava essa atitude um ato de submissão.
Saí da casa dos meus pais repetindo o mantra “nunca lavarei cuecas, nunca
lavarei cuecas” e, semanas depois, lá estava eu, entretida no tanque, cercada
de roupas de baixo masculinas, que aguardavam ansiosas minha atenção. Apesar
de, até então, não deter qualquer conhecimento ou interesse pelos serviços
domésticos (nem mesmo os básicos, como cozinhar feijão ou separar as roupas por
cor antes de colocar na máquina), vale registrar aqui a alegria que senti ao ganhar
uma lavadora – que aprendi a operar perguntando às minhas amigas via Whatsapp. Concluí
que lavar roupas (inclusive as cuecas) é uma consequência natural da vida. E
quem tem o privilégio de passar mais tempo em casa acaba se tornando
responsável por uma parcela maior das tarefas domésticas. Parece clichê, mas a
vida a dois é uma troca; nada mais justo que fazer algumas gentilezas a quem
faz o mesmo por você.
3)
Quem
traiu uma vez, trai sempre.
Trair nunca é
legal, mas vale a pena pensar nos motivos que levaram alguém a fazê-lo. Se
nenhum relacionamento é igual, não faz sentido pensar que sempre haverá razões
para pular a cerca. Além disso, nem todos sentem a necessidade de confirmar se
a grama do vizinho é realmente mais verde. Há ainda algumas particularidades de
cada gênero. Crescemos ouvindo que os homens traem mais – verdade ou mentira,
as mulheres costumam ser mais cruéis. Traem por vingança, especialmente quando
se sentem inseguras em relação ao parceiro. Muitas chegam ao ponto de se vingar
sem ter certeza de que estão sendo traídas, pois não querem correr o risco de
ficar para trás. Entretanto, a mesma mulher que foi maquiavélica e vingativa em
um relacionamento passado, não repetirá esse padrão de comportamento ao
encontrar um homem que jogue limpo, seja carinhoso e atencioso, e não abra
brecha para desconfiança. Não faz sentido pensar que, por já ter traído, ela
terá reações pavlovianas líquidas a cada vez que tiver a oportunidade de pular
na cama de um homem que não seja o seu. Resumindo: traição não é uma questão de
índole. Independentemente do número de pilantragens que protagonize ao longo da
vida, acho difícil acreditar que algum ser nasça inclinado a isso.
4)
Aquele
que vive desconfiando do outro, é porque andou aprontando algo.
Conheço várias
pessoas que já traíram e vivem com a pulga atrás da orelha por conta disso. É
verdade que boa parte das pessoas que já pisou fora da linha costuma vigiar o
Facebook do parceiro, em busca de algo que evidencie a mesma atitude por parte
dele – para tirar o peso da consciência, quem sabe? Porém, há quem viva
desconfiado mesmo nunca tendo traído. Desconfiança tem muito mais a ver com
insegurança que com atitudes do passado. Quem nunca se sentiu indigno do que
tem em casa? Aquele cara que tem o hábito de repetir que fulana é “muita areia”
para o seu “caminhãozinho” é o mesmo que põe em cheque constantemente a
honestidade da namorada.
5)
Transar
nos primeiros encontros é desperdiçar a chance de um namoro.
Um conhecido
sempre aconselhava as amigas solteiras que estavam em busca de um namorado:
“não transe, em hipótese alguma,
antes do terceiro encontro. Se possível, segure a periquita até o quinto”. O
que dizer sobre isso? Valorizar o passe não garante nada, especialmente se o
cara for do tipo conquistador, que perde o interesse quando consegue o quer. O
homem esclarecido, por outro lado, dificilmente vai achar que, por ter transado
com ele logo de cara, a mulher faz isso com todos. E este é mais um caso que
envolve autoestima: será que é mais fácil pensar que a mulher é vagabunda, ao
invés de se considerar um macho irresistível?
