terça-feira, 8 de abril de 2014

Desmitificando frases prontas sobre relacionamentos



Compartilhar experiências sobre relacionamentos é tentador! Aconselhar as amigas, analisar as situações apresentadas por elas e dar dicas de como agiríamos se estivéssemos no lugar delas é um hábito tipicamente feminino. Já perdi a conta de quantos leitores, homens e mulheres (conhecidos e desconhecidos), relataram-me seus dramas e questionaram-me sobre como prosseguir. Confesso que já pequei em muitas situações, dando conselhos sobre os quais acabei passando por cima, quando a protagonista do dilema era eu. Sem falar nas mudanças de opinião, acerca de ideias que um dia pensei ter convicção. A frase é batida, porém verdadeira: relacionamentos não são ciências exatas; portanto, é mais seguro deixar os “achismos” guardados em nossas cabecinhas pensantes, ao invés de bancar os especialistas e sair dando conselhos por aí. Como exemplos de teorias altamente contestáveis, cito abaixo cinco muito comuns nas mesas redondas sobre relacionamentos:

1)      Não vou namorar (nem o Brad Pitt, se ele quiser); estou num momento de curtir e nada mais.
Esse é um dos maiores equívocos que podemos cometer, até porque namoro é o tipo de coisa que não se planeja. Quem sai à caça de um namorado só pode estar fora do juízo. Atirar para todos os lados é típico de quem quer encher a infinita linguiça da vida e nada mais. Amarrar-se ao primeiro ser “pegável” é sintoma de carência, exaustão por viver na balada atrás de um rabo de saia ou ânsia de se “encostar” em alguém que possa suprir suas necessidades financeiras (acredite: isso existe; quem leu o texto sobre as alpinistas sociais, publicado há alguns meses, sabe do que estou falando). Quem se sente bem na própria pele não se contenta com relações mornas, sustentadas na companhia de pessoas mais ou menos. Compromissos dão trabalho; por que alguém assumiria um se não houvesse compensação? O comprometimento deve ser uma consequência da vontade de estar junto, da química e de um conjunto de afinidades ou outros bons motivos que, quando surgem, são facilmente perceptíveis. Em pouco tempo, torna-se simples identificar o que não passa de uma aventura e o que pode ter futuro. Não existe momento para curtir ou namorar – existem, sim, pessoas para curtir ou namorar. Se está há meses com alguém e não sente vontade de dar um passo adiante, pode escrever: o lance está com os dias contados. Quando é para rolar, nenhum empecilho é forte o suficiente – nem mesmo o fato de um dos dois envolvidos estar de mudança para Cochabamba. Se o cara vier com papo furado, alegando ter-se separado recentemente, estar trabalhando demais, estudando para um concurso dificílimo ou coisa parecida, desencane! Uma amiga foi vítima dessa conversa e, poucos dias depois, lá estava o palhaço “em um relacionamento sério” no Facebook. Com outra, é claro!

2)      Nunca lavarei cueca de homem nenhum!
Desde quando lavar cueca torna uma mulher pior? Pois é, já critiquei muitas delas por isso. Num passado não muito distante, considerava essa atitude um ato de submissão. Saí da casa dos meus pais repetindo o mantra “nunca lavarei cuecas, nunca lavarei cuecas” e, semanas depois, lá estava eu, entretida no tanque, cercada de roupas de baixo masculinas, que aguardavam ansiosas minha atenção. Apesar de, até então, não deter qualquer conhecimento ou interesse pelos serviços domésticos (nem mesmo os básicos, como cozinhar feijão ou separar as roupas por cor antes de colocar na máquina), vale registrar aqui a alegria que senti ao ganhar uma lavadora – que aprendi a operar perguntando às minhas amigas via Whatsapp. Concluí que lavar roupas (inclusive as cuecas) é uma consequência natural da vida. E quem tem o privilégio de passar mais tempo em casa acaba se tornando responsável por uma parcela maior das tarefas domésticas. Parece clichê, mas a vida a dois é uma troca; nada mais justo que fazer algumas gentilezas a quem faz o mesmo por você.

3)      Quem traiu uma vez, trai sempre.
Trair nunca é legal, mas vale a pena pensar nos motivos que levaram alguém a fazê-lo. Se nenhum relacionamento é igual, não faz sentido pensar que sempre haverá razões para pular a cerca. Além disso, nem todos sentem a necessidade de confirmar se a grama do vizinho é realmente mais verde. Há ainda algumas particularidades de cada gênero. Crescemos ouvindo que os homens traem mais – verdade ou mentira, as mulheres costumam ser mais cruéis. Traem por vingança, especialmente quando se sentem inseguras em relação ao parceiro. Muitas chegam ao ponto de se vingar sem ter certeza de que estão sendo traídas, pois não querem correr o risco de ficar para trás. Entretanto, a mesma mulher que foi maquiavélica e vingativa em um relacionamento passado, não repetirá esse padrão de comportamento ao encontrar um homem que jogue limpo, seja carinhoso e atencioso, e não abra brecha para desconfiança. Não faz sentido pensar que, por já ter traído, ela terá reações pavlovianas líquidas a cada vez que tiver a oportunidade de pular na cama de um homem que não seja o seu. Resumindo: traição não é uma questão de índole. Independentemente do número de pilantragens que protagonize ao longo da vida, acho difícil acreditar que algum ser nasça inclinado a isso.

4)      Aquele que vive desconfiando do outro, é porque andou aprontando algo.
Conheço várias pessoas que já traíram e vivem com a pulga atrás da orelha por conta disso. É verdade que boa parte das pessoas que já pisou fora da linha costuma vigiar o Facebook do parceiro, em busca de algo que evidencie a mesma atitude por parte dele – para tirar o peso da consciência, quem sabe? Porém, há quem viva desconfiado mesmo nunca tendo traído. Desconfiança tem muito mais a ver com insegurança que com atitudes do passado. Quem nunca se sentiu indigno do que tem em casa? Aquele cara que tem o hábito de repetir que fulana é “muita areia” para o seu “caminhãozinho” é o mesmo que põe em cheque constantemente a honestidade da namorada.

5)      Transar nos primeiros encontros é desperdiçar a chance de um namoro.
Um conhecido sempre aconselhava as amigas solteiras que estavam em busca de um namorado: “não transe, em hipótese alguma, antes do terceiro encontro. Se possível, segure a periquita até o quinto”. O que dizer sobre isso? Valorizar o passe não garante nada, especialmente se o cara for do tipo conquistador, que perde o interesse quando consegue o quer. O homem esclarecido, por outro lado, dificilmente vai achar que, por ter transado com ele logo de cara, a mulher faz isso com todos. E este é mais um caso que envolve autoestima: será que é mais fácil pensar que a mulher é vagabunda, ao invés de se considerar um macho irresistível?

Além destas, há muitas outras crenças da série “nunca diga nunca”, que ministramos com empáfia ao longo da vida e, em algum momento, temos que engolir e voltar atrás. Eu mesma acabei de apagar o último parágrafo deste texto – que havia escrito há cerca de dois meses, tempo de sobra para mudar de ideia!