quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A ditadura que tira os homens do sério


Pensar nos publicitários responsáveis pelas campanhas de desodorante em geral faz-me sentir vergonha alheia. Garantias de “axilas macias” ou “suaves” só não são piores que dizem proteger do mau odor por 48 horas – tomar banho pra quê? Certa vez, quando folheava uma revista, avistei o anúncio de um produto que prometia “sensualizar” as nada atrativas cavidades abaixo dos braços. Tentei pensar em alguém que usasse as axilas como arma de conquista, ou que se sentisse atraído por essa parte, digamos, tão insignificantes do corpo humano. Pouco depois, descobri que a irrelevância das axilas pode até fazer sentido para mim, mas sua aparência é importante para nada menos que 95% das mulheres. É o que diz uma pesquisa “global” encomendada por uma marca de antitranspirantes – suspeito, não?

Mas a surpresa não pára por aí, cara leitora. Deparei-me com outro anúncio, que prometia “axilas livres para curtir a vida”. Ele trazia o depoimento de uma suposta consumidora, que afirmava que o fato de sentir suas axilas bonitas transmitia-lhe a sensação de liberdade. Ou seja: axilas bem cuidadas e o direito de escolher fazer ou não fazer qualquer coisa caminham juntos! Entretanto, em tempos de ditadura ferrenha da beleza, as axilas parecem ser a menor preocupação das mulheres reais. E o que pouco se costuma comentar é que certos comportamentos resultantes da preocupação excessiva com a aparência podem afetar, além da autoestima, os relacionamentos interpessoais. Vejamos como:
 

Escravidão à chapinha

Caetano e milhares de outros homens estão cheios de vontade de ficar mais um instante debaixo dos caracóis dos seus cabelos. Mesmo assim, você e milhares de outras mulheres insistem em destruí-los quase que diariamente com a “bendita” chapinha. Mesmo tendo plena consciência de que o milagre é momentâneo, pois até o Silvio Santos – que, reza a lenda, usa peruca – sabe, sem que o Jassa precise alertá-lo, que esse tipo de processo faz os fios fritarem e pedirem socorro, tornando-os mais secos e esturricados a cada dia.

Anos atrás, alguma alma viva do mundo da moda resolveu ressuscitar a “onda” do cabelo liso. E não bastava ser liso; tinha que ser completamente chapado, o que significa que qualquer ondulação era sinônimo de descuido. Como nem todo mundo possui esse atributo, vale lembrar que alongar os cachos demanda tempo e esforço. Sem falar no agravante calor – vai dizer que você nunca sofreu com o jato quente do secador ou o vapor da chapinha, enquanto o sol brilhava lá fora e os termômetros ultrapassavam os 30 graus? Nessas situações, não há ar-condicionado que dê jeito!

O verão é um dos maiores pesadelos das escravas da chapinha. Não só o verão. A chuva. A garoa. O sereno. E praticamente toda e qualquer precipitação ou condição do tempo. Nas estações mais quentes – parafraseando Caetano mais uma vez –, morre a vontade de tocar a areia branca com os pés; de molhar os cabelos na água azul do mar. Você e eu sabemos disso. A magia dos dias ensolarados à beira da piscina se perde em meio à preocupação com os fios alisados, que têm vontade própria e insistem em voltar à forma original ao primeiro sinal de suor.

Acho graça quando recordo as tardes na piscina de casa, antes de assumir meu cabelo rebelde, que mantinha impecavelmente preso em um coque ou rabo de cavalo, evitando molhá-lo desta forma. Eu não me permitia ser atingida pela água acima dos ombros e, confesso, a diversão nunca era completa. Era como ir ao Rio de Janeiro e não visitar o Cristo; como ir à balada e não beber nem uma cervejinha; como ganhar na MegaSena e não retirar o prêmio; como transar e não gozar. Mais patéticos que isso eram os dias de chuva, quando eu não estava devidamente prevenida com um guarda-chuva e precisava encontrar outro jeito de enfrentar a maior vilã dos cabelos lisos. Sentia-me em uma luta desleal e, sem outra arma em mãos, protegia-me com o primeiro objeto que encontrasse pela frente: jaqueta, bolsa, blusa... já tirei muito casaco (e passei frio) para jogar na cabeça e evitar uma tragédia pior.

Depois de tanto ler sobre cabelos, você deve estar pensando como isso pode atrapalhar os relacionamentos afetivos. A resposta é simples: mais insólito que nascer com cabelo liso é arrumar namorado ou marido paciente. E quem nunca perdeu a hora e chegou atrasada a um compromisso, por perder muito tempo domando a cabeleira? Para nossa tristeza, a maioria dos homens não é compreensiva com os dramas femininos. Noventa e nove por cento odeia esperar e, quando o faz, o faz reclamando e pressionando – é justamente nessas horas que borramos o delineador ou espirramos enquanto passamos rímel. Eu já conheci os dois lados da moeda (o bruto e o paciente) e, vida após trauma, hoje sou grata ao que a vida me reservou. Portanto, se você tem a mesma sorte, seja uma boa menina!
 

Curvas derrapantes

Quem não quer ter peitão, bundão, pernão e cinturinha? Mesmo sabendo que se trata de utopia, continuamos sonhando com um corpo de capa de revista (esquecendo que nenhum deles, hoje em dia, escapa do milagroso Photoshop). Diante de nós, há inúmeros exemplos de cantoras que retiram costelas para afinar a cintura; de atrizes que trocam as próteses de silicone como quem troca de roupa; de “panicats” que abusam de suplementos sem qualquer preocupação aparente, para ter coxas de jogador de futebol. Falamos em “juntar a fome com a vontade de comer”, mas estamos sempre de dieta. E, cá entre nós, qual é a graça de sair com alguém que impõe mil restrições à vida social? Que tipo de lugar freqüenta quem não come nada além de algumas folhas de rúcula com tomate seco – a propósito, se alguém realmente tiver interesse em saber, pergunte à Adriane Galisteu, que jura de pés juntos estar há anos comendo só isso.

Recentemente, senti pena de um homem rechonchudo que vi em um restaurante, acompanhado de uma mulher esquálida que mal mexia no prato e pedia uma lata de guaraná atrás da outra, obrigando o pobre a se virar sozinho com a garrafa de vinho à mesa. Apesar de seu semblante tranquilo, de quem provavelmente curte a vida como ela é, sem se preocupar com as aparências, senti um pouco de tristeza no fundo de seus olhos. Provavelmente pela falta de uma boa parceira de copo e de garfo. Pensando melhor, talvez isso sequer tenha passado pela cabeça dele. Provavelmente, minha teoria tenha alguma ligação com o fato de nunca ter gostado de sair com gente que não bebe ou exagera nos cuidados com a alimentação. Mas tenho certeza quase absoluta de que não sou a única a broxar com isso.
 

Para o bem da humanidade, existe mulher que não priorize a estética. Que se preocupe mais em investir no autoconhecimento e em buscar relações verdadeiras, aceitando a própria realidade estética. Que fique claro que isso não representa uma crítica a quem se importa com a beleza (até mesmo porque faço parte desse time), nem dizendo que estas pessoas necessariamente deixem de lado as coisas genuinamente importantes. Os alvos de minha censura são aqueles que só se garantem usando os atributos físicos, que se submetem ao “teste do sofá” por não acreditar no próprio taco, que acham que os menos privilegiados pela genética não têm seu valor. Ser bonita é uma delícia, ser elogiada sem precisar passar em frente a uma construção também. Caprichar no cabelo e na maquiagem e sair linda na foto, quem não gosta? Mas ganhar meia hora de sono (nem que seja de vez em quando) ao invés de pular cedo da cama para fazer chapinha e passar massa corrida na cara é ainda melhor!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Da falta de vergonha ao alpinismo social


O enredo é conhecido: roupas caras, carro luxuoso e cara limpa cumprem um forte papel ao tornar o trabalhador braçal sedutor para a bela garota que o menosprezou. É assim que o vídeo “Como conquistar uma mulher” retrata uma prática muito comum entre o público feminino: o alpinismo social. Em função das raízes culturais, para muitas mulheres esse comportamento apenas reproduz o que ocorria no passado – quando os homens desempenhavam a função de provedor, garantindo que não faltasse comida à mesa de suas famílias, enquanto as esposas cuidavam do lar e dos filhos. Um longo caminho foi percorrido, até que se tornasse aceitável a uma fêmea trabalhar. Aceitável: pois muitas lutaram – e lutam até hoje – pela independência e pela igualdade dos sexos, enquanto parte da sociedade ainda abomina a ideia. O que não quer dizer que não exista um outro time: o das acomodadas, que preferem depender de uma figura masculina a buscar o próprio dinheiro. O tempo passou, o mundo mudou, mas alguma marca daquela época ficou.

Não é novidade que muita mulher leva em consideração o carro, profissão e até sobrenome de seu alvo, antes de assumir ou não um relacionamento. Os motivos que justificam tal atitude são variados –  a pressão familiar, o gosto pela ostentação e a falta de vontade de trabalhar representam apenas alguns deles. O que nem todos sabem é que existe homem que aprecie a companhia de alguém que tem seus cartões de crédito como principal interesse – o que lembrou-me de um conhecido que achava o máximo exibir a bela namorada como “comprovante de renda”, como se o fato de estar com ela, apesar de sua falta de atributos estéticos, fizesse todos ao seu redor acreditarem que ele era rico.

Por muito tempo não entendi as razões que levam um homem a sair com alguém que só quer saber de seus bens materiais. Hoje, acredito que a intenção de quem se submete a isso é estar sempre no controle, manipulando sua presa para que faça todas as suas vontades. E, como uma mão lava a outra, ao se deixar dominar, a mulher estaria assegurando suas regalias. Aos que não nasceram com os sobrenomes Marinho ou Orleans e Bragança, mas desejam conquistar o mosquetão, ou melhor, o coração de uma alpinista social, aí vão algumas dicas sobre o que elas mais gostam:

Carro - The ride
Talvez este seja o item que mais chame a atenção das interesseiras, o que simplifica as coisas para a ala masculina, levando em conta o crédito fácil e os financiamentos a longo prazo. Marias Gasolinas rejeitam veículos de pequeno porte, como C3 e Ka, por considerá-los “carros de menina”, sem poder de ostentação. A maioria prefere modelos sedan (Corolla e Civic, por exemplo), pressupondo que homens bem sucedidos profissionalmente usam esse tipo de carro para garantir uma imagem de austeridade.

Há uma particularidade em cidades do interior, onde é natural ver muitos marmanjos montados em suas caminhonetes (Hilux, Amarok e similares) devidamente identificadas por expressões como “cavalo de aço” – sério? Cavalo de aço? Você mandou fazer esse adesivo? Enfim, o que vem ao caso é o poder de tais exemplares, de fazer a imaginação das meninas galopar mais longe; afinal, eles também podem ser donos de inúmeros verdes pastos, onde se reúnem com seus amigos e chapéus aos fins de semana, para mascar gravetinhos e assar costelões madrugada afora, enquanto conversam sobre o cruzamento de bois zebu e nelore. Moradores de grandes centros urbanos podem até não acreditar, mas no interior o estilo agroboy é sucesso total. Aôôô potência!

Bebida
Traz a bebida que pisca! Na era do Rei do Camarote (como ficou conhecida uma triste figura de nome Alexander de Almeida, que diz gastar mais de R$ 50 mil por balada), quem bebe vodca já perdeu a majestade. Champanhe traz status. O jorro de fogo que sai do gargalo chama a atenção de longe, levando as alpinistas sociais ao delírio. Apesar de companhia ideal em qualquer ocasião – desde baladas e churrascos, até um despretensioso sábado no sofá –, a fama da cerveja é das piores. Nem as importadas escapam. Sim, nem mesmo as importadas.

Roupas
Enganam-se os que pensam que marcas caras são suficientes para impressionar uma alpinista social. De nada adianta ter asas, se não souber voar. Adquiridas as peças de grife, é hora de montar um visual de peso. Mulher interesseira é facilmente atraída pelo estilo executivo, de paletó e gravata – que, na minha opinião, mais parece funcionário de banco. Entretanto, para um evento mais descontraído, como um churrasco em uma tarde de verão qualquer, esse look torna-se inviável, podendo ser substituído pelas tradicionais calça cáqui e camisa pólo. As vestimentas devem vir acompanhadas de sapatênis ou mocassins (aqueles sapatinhos de gosto duvidoso, que só homens da terceira idade e o Rubem Fonseca em “A Coleira do Cão” vêem com bons olhos). Para arrematar a cara da riqueza, é só jogar um cardigã nas costas e voilà!

Mesmo conhecidos estes segredinhos, saber levar na conversa não deixa de ser essencial, homem que me lê! Portanto, se não for médico, advogado ou executivo de multinacional, use a velha profissão de empresário para impressionar. Se não for, minta que é; afinal de contas, quem tem empresa tem posses. Se todas essas dicas juntas não forem suficientes, medidas emergenciais e muito mais drásticas se fazem necessárias: trate de reservar camarotes em todos os shows e baladas da moda, contrate dois ou três seguranças, arrume amigos famosos (podem até ser ex-BBBs) e não esqueça de postar tudo no Instagram!