Caros leitores, hoje meu estado psicológico resultou em um texto inusitado, diferente dos demais publicados. Pensei em assuntos mais alegres para abordar, mas este foi o tema que prevaleceu, dadas as circunstâncias. Não deixa de seguir nossa temática habitual, porém desta vez decidi falar sobre outro tipo de relacionamento. Creio que muitos se identificarão com as palavras abaixo.
Dói horrores a morte – às vezes mais
do que esperávamos. Não a morte propriamente dita; mais justo é culpar as boas lembranças
pelo sofrimento. Recordar as férias longe de casa, recebendo toda a atenção e
os agrados daqueles que, dizem, “deseducam-nos”. Tornam-nos ainda mais mimados
ao fazer todas as nossas vontades. Mas quem disse que excesso de amor deseduca?
Tudo bem, em algumas oportunidades eles extrapolam os limites. Deixam-nos
pintar suas caras como as dos índios e até aceitam dar uns pulinhos com um
chocalho nas mãos. Presenteiam-nos em datas quaisquer, só para satisfazer o
desejo despertado pelos comerciais de televisão, que abusam da persuasão ao
apresentar brinquedos de última geração, cujo futuro próximo é o abandono em
algum canto da casa. Levam-nos passear no carrinho de madeira, aquele mesmo
usado para vender produtos de limpeza pela vizinhança. Acham graça quando
corrigimos suas palavras erradas, o uso do “R” no lugar do “L”. E nós,
perspicazes desde cedo no quesito travessura, aproveitamos o fato de morar
longe – e dar as caras apenas nas férias ou feriados – para tirar vantagem dos
outros primos, que acabam levando a culpa quando alguém “misterioso” apronta
alguma, mesmo não sendo eles.
Ao pensar na lacuna representada
pela juventude, quando nos desligamos um pouco deles, acreditando que eram
imortais pelo simples fato de estar tudo bem, não bate apenas a saudade, mas
também um sentimento de culpa por não ter aproveitado cada possibilidade de estar
junto. Nem cogitamos que um dia alguém irá telefonar, comunicando tristes
novidades: a fragilidade de seus corpos, os primeiros sintomas de alguma
doença, o esquecimento, as quedas ocorridas durante o desempenho de tarefas que
antes eram simples, os exames, as cirurgias. É quando os lamentos e a
preocupação vêm em mão dupla: ao admitirmos a proximidade de sua morte e ao concluirmos
que, amanhã, será a vez daqueles que nos pariram.
Há 20 dias, quando a exaustão provocada
por uma cama de hospital terminou de sugar os farrapos de força que o mantinham
vivo, foi impossível não recordar aquele 11 de maio, última vez que o vi. Constatar
o que o tempo fez com o senhor deixou-me assolada. A volta para casa foi penosa,
finalmente entendi o que estava acontecendo. Sofri de longe, não voltei mais,
fui covarde e não quis ser confrontada novamente pela realidade. Afinal, se a
imagem de sua debilidade derrubou-me daquela forma, como não me negar a vê-lo
deitado, sem vida, em uma caixa de madeira? Deixei de ir, não porque não o amava,
mas porque meu amor e minha dor eram tão imensos, que preferi guardar apenas as
lembranças (tão belas!) da infância.
“E se somos Severinos iguais em tudo na
vida, morremos de morte igual, mesma morte Severina”. Mas o senhor, Vô
Severino, teve muito mais sucesso que o retirante de João Cabral de Melo Neto:
não morreu “de velhice antes dos trinta”; foi agraciado com uma longevidade que
lhe possibilitou 92 anos – muito bem vividos.

