terça-feira, 19 de agosto de 2014

Um de tantos Severinos

Caros leitores, hoje meu estado psicológico resultou em um texto inusitado, diferente dos demais publicados. Pensei em assuntos mais alegres para abordar, mas este foi o tema que prevaleceu, dadas as circunstâncias. Não deixa de seguir nossa temática habitual, porém desta vez decidi falar sobre outro tipo de relacionamento. Creio que muitos se identificarão com as palavras abaixo.


Dói horrores a morte – às vezes mais do que esperávamos. Não a morte propriamente dita; mais justo é culpar as boas lembranças pelo sofrimento. Recordar as férias longe de casa, recebendo toda a atenção e os agrados daqueles que, dizem, “deseducam-nos”. Tornam-nos ainda mais mimados ao fazer todas as nossas vontades. Mas quem disse que excesso de amor deseduca? Tudo bem, em algumas oportunidades eles extrapolam os limites. Deixam-nos pintar suas caras como as dos índios e até aceitam dar uns pulinhos com um chocalho nas mãos. Presenteiam-nos em datas quaisquer, só para satisfazer o desejo despertado pelos comerciais de televisão, que abusam da persuasão ao apresentar brinquedos de última geração, cujo futuro próximo é o abandono em algum canto da casa. Levam-nos passear no carrinho de madeira, aquele mesmo usado para vender produtos de limpeza pela vizinhança. Acham graça quando corrigimos suas palavras erradas, o uso do “R” no lugar do “L”. E nós, perspicazes desde cedo no quesito travessura, aproveitamos o fato de morar longe – e dar as caras apenas nas férias ou feriados – para tirar vantagem dos outros primos, que acabam levando a culpa quando alguém “misterioso” apronta alguma, mesmo não sendo eles.

Ao pensar na lacuna representada pela juventude, quando nos desligamos um pouco deles, acreditando que eram imortais pelo simples fato de estar tudo bem, não bate apenas a saudade, mas também um sentimento de culpa por não ter aproveitado cada possibilidade de estar junto. Nem cogitamos que um dia alguém irá telefonar, comunicando tristes novidades: a fragilidade de seus corpos, os primeiros sintomas de alguma doença, o esquecimento, as quedas ocorridas durante o desempenho de tarefas que antes eram simples, os exames, as cirurgias. É quando os lamentos e a preocupação vêm em mão dupla: ao admitirmos a proximidade de sua morte e ao concluirmos que, amanhã, será a vez daqueles que nos pariram.

Há 20 dias, quando a exaustão provocada por uma cama de hospital terminou de sugar os farrapos de força que o mantinham vivo, foi impossível não recordar aquele 11 de maio, última vez que o vi. Constatar o que o tempo fez com o senhor deixou-me assolada. A volta para casa foi penosa, finalmente entendi o que estava acontecendo. Sofri de longe, não voltei mais, fui covarde e não quis ser confrontada novamente pela realidade. Afinal, se a imagem de sua debilidade derrubou-me daquela forma, como não me negar a vê-lo deitado, sem vida, em uma caixa de madeira? Deixei de ir, não porque não o amava, mas porque meu amor e minha dor eram tão imensos, que preferi guardar apenas as lembranças (tão belas!) da infância. 

“E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte Severina”. Mas o senhor, Vô Severino, teve muito mais sucesso que o retirante de João Cabral de Melo Neto: não morreu “de velhice antes dos trinta”; foi agraciado com uma longevidade que lhe possibilitou 92 anos – muito bem vividos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Você pode até tentar, mas não é uma pessoa séria

Todo mundo passa por uma fase em que sente que está perdendo o controle da vida social (geralmente bebendo demais, se drogando demais ou o que quer que seja) e, por isso, acaba achando que pode solucionar o problema levando a sério o primeiro cara (ou guria) que disser algo bonito, no momento em que tudo parecer estar prestes a desabar. Qualquer mensagem que anteriormente soaria como a coisa mais tosca do mundo pode virar o início de um relacionamento que, de cara, parecerá uma luz no fim do túnel. Mas, acreditem, tem tudo pra ser o seu pior pesadelo, como uma verdadeira transformação do amor da sua vida em um carrapato enlouquecedor, em uma questão de meses.
Essa pessoa que chegou de mansinho e se aproveitou do seu momento de fraqueza tem 90% de chances de ser carente. E eu não preciso explicar pra um maior de idade aonde dar moral pra pessoas carentes vai te levar, preciso? Todo mundo aqui já deve ter cedido aos encantos de um(a) encalhado(a) pensando que ia, assim, parar de ouvir piadinhas infames da família sobre sua situação alcoólica nos almoços de domingo.
Acontece que ninguém aguenta muito tempo se fazendo de mais sério e responsável do que realmente é, simplesmente pelo fato disso ter nascido com a gente, fazendo parte de um pedacinho fundamental de nossas personalidades. Você se faz de santo aqui, pra ganhar flores e bombons, mas, quando sequer tiver a capacidade de perceber, estará olhando para o entregador de pizza com os mesmos olhos do pedreiro mais tarado, que te olhou na rua esses dias fazendo-a sentir nojo.
Você pode se afastar das pessoas com as quais já se relacionou intimamente, beber menos, sair de casa apenas pra trabalhar, mas, quando tiver uma oportunidade de olhar pra um homem que não te cobra nada, o fará sem pensar duas vezes. E ele nem precisará ser bonito, porque o que vai te atrair será simplesmente o fato dele não te pedir absolutamente nada.

Amar é algo sobre o qual não se deve comentar, pois cada um faz do jeito que bem entender. Mas uma coisa é fato: ninguém ama em três dias e, na maioria dos casos, não dura pra sempre. Estar com alguém por achar que, assim, vai ser mais digno de respeito, é pedir pra se sentir preso e acabar sem vida sexual e sem amigos. Se não "dá pra coisa", desista.
  

terça-feira, 8 de abril de 2014

Desmitificando frases prontas sobre relacionamentos



Compartilhar experiências sobre relacionamentos é tentador! Aconselhar as amigas, analisar as situações apresentadas por elas e dar dicas de como agiríamos se estivéssemos no lugar delas é um hábito tipicamente feminino. Já perdi a conta de quantos leitores, homens e mulheres (conhecidos e desconhecidos), relataram-me seus dramas e questionaram-me sobre como prosseguir. Confesso que já pequei em muitas situações, dando conselhos sobre os quais acabei passando por cima, quando a protagonista do dilema era eu. Sem falar nas mudanças de opinião, acerca de ideias que um dia pensei ter convicção. A frase é batida, porém verdadeira: relacionamentos não são ciências exatas; portanto, é mais seguro deixar os “achismos” guardados em nossas cabecinhas pensantes, ao invés de bancar os especialistas e sair dando conselhos por aí. Como exemplos de teorias altamente contestáveis, cito abaixo cinco muito comuns nas mesas redondas sobre relacionamentos:

1)      Não vou namorar (nem o Brad Pitt, se ele quiser); estou num momento de curtir e nada mais.
Esse é um dos maiores equívocos que podemos cometer, até porque namoro é o tipo de coisa que não se planeja. Quem sai à caça de um namorado só pode estar fora do juízo. Atirar para todos os lados é típico de quem quer encher a infinita linguiça da vida e nada mais. Amarrar-se ao primeiro ser “pegável” é sintoma de carência, exaustão por viver na balada atrás de um rabo de saia ou ânsia de se “encostar” em alguém que possa suprir suas necessidades financeiras (acredite: isso existe; quem leu o texto sobre as alpinistas sociais, publicado há alguns meses, sabe do que estou falando). Quem se sente bem na própria pele não se contenta com relações mornas, sustentadas na companhia de pessoas mais ou menos. Compromissos dão trabalho; por que alguém assumiria um se não houvesse compensação? O comprometimento deve ser uma consequência da vontade de estar junto, da química e de um conjunto de afinidades ou outros bons motivos que, quando surgem, são facilmente perceptíveis. Em pouco tempo, torna-se simples identificar o que não passa de uma aventura e o que pode ter futuro. Não existe momento para curtir ou namorar – existem, sim, pessoas para curtir ou namorar. Se está há meses com alguém e não sente vontade de dar um passo adiante, pode escrever: o lance está com os dias contados. Quando é para rolar, nenhum empecilho é forte o suficiente – nem mesmo o fato de um dos dois envolvidos estar de mudança para Cochabamba. Se o cara vier com papo furado, alegando ter-se separado recentemente, estar trabalhando demais, estudando para um concurso dificílimo ou coisa parecida, desencane! Uma amiga foi vítima dessa conversa e, poucos dias depois, lá estava o palhaço “em um relacionamento sério” no Facebook. Com outra, é claro!

2)      Nunca lavarei cueca de homem nenhum!
Desde quando lavar cueca torna uma mulher pior? Pois é, já critiquei muitas delas por isso. Num passado não muito distante, considerava essa atitude um ato de submissão. Saí da casa dos meus pais repetindo o mantra “nunca lavarei cuecas, nunca lavarei cuecas” e, semanas depois, lá estava eu, entretida no tanque, cercada de roupas de baixo masculinas, que aguardavam ansiosas minha atenção. Apesar de, até então, não deter qualquer conhecimento ou interesse pelos serviços domésticos (nem mesmo os básicos, como cozinhar feijão ou separar as roupas por cor antes de colocar na máquina), vale registrar aqui a alegria que senti ao ganhar uma lavadora – que aprendi a operar perguntando às minhas amigas via Whatsapp. Concluí que lavar roupas (inclusive as cuecas) é uma consequência natural da vida. E quem tem o privilégio de passar mais tempo em casa acaba se tornando responsável por uma parcela maior das tarefas domésticas. Parece clichê, mas a vida a dois é uma troca; nada mais justo que fazer algumas gentilezas a quem faz o mesmo por você.

3)      Quem traiu uma vez, trai sempre.
Trair nunca é legal, mas vale a pena pensar nos motivos que levaram alguém a fazê-lo. Se nenhum relacionamento é igual, não faz sentido pensar que sempre haverá razões para pular a cerca. Além disso, nem todos sentem a necessidade de confirmar se a grama do vizinho é realmente mais verde. Há ainda algumas particularidades de cada gênero. Crescemos ouvindo que os homens traem mais – verdade ou mentira, as mulheres costumam ser mais cruéis. Traem por vingança, especialmente quando se sentem inseguras em relação ao parceiro. Muitas chegam ao ponto de se vingar sem ter certeza de que estão sendo traídas, pois não querem correr o risco de ficar para trás. Entretanto, a mesma mulher que foi maquiavélica e vingativa em um relacionamento passado, não repetirá esse padrão de comportamento ao encontrar um homem que jogue limpo, seja carinhoso e atencioso, e não abra brecha para desconfiança. Não faz sentido pensar que, por já ter traído, ela terá reações pavlovianas líquidas a cada vez que tiver a oportunidade de pular na cama de um homem que não seja o seu. Resumindo: traição não é uma questão de índole. Independentemente do número de pilantragens que protagonize ao longo da vida, acho difícil acreditar que algum ser nasça inclinado a isso.

4)      Aquele que vive desconfiando do outro, é porque andou aprontando algo.
Conheço várias pessoas que já traíram e vivem com a pulga atrás da orelha por conta disso. É verdade que boa parte das pessoas que já pisou fora da linha costuma vigiar o Facebook do parceiro, em busca de algo que evidencie a mesma atitude por parte dele – para tirar o peso da consciência, quem sabe? Porém, há quem viva desconfiado mesmo nunca tendo traído. Desconfiança tem muito mais a ver com insegurança que com atitudes do passado. Quem nunca se sentiu indigno do que tem em casa? Aquele cara que tem o hábito de repetir que fulana é “muita areia” para o seu “caminhãozinho” é o mesmo que põe em cheque constantemente a honestidade da namorada.

5)      Transar nos primeiros encontros é desperdiçar a chance de um namoro.
Um conhecido sempre aconselhava as amigas solteiras que estavam em busca de um namorado: “não transe, em hipótese alguma, antes do terceiro encontro. Se possível, segure a periquita até o quinto”. O que dizer sobre isso? Valorizar o passe não garante nada, especialmente se o cara for do tipo conquistador, que perde o interesse quando consegue o quer. O homem esclarecido, por outro lado, dificilmente vai achar que, por ter transado com ele logo de cara, a mulher faz isso com todos. E este é mais um caso que envolve autoestima: será que é mais fácil pensar que a mulher é vagabunda, ao invés de se considerar um macho irresistível?

Além destas, há muitas outras crenças da série “nunca diga nunca”, que ministramos com empáfia ao longo da vida e, em algum momento, temos que engolir e voltar atrás. Eu mesma acabei de apagar o último parágrafo deste texto – que havia escrito há cerca de dois meses, tempo de sobra para mudar de ideia!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A base experiencial do sofrimento sertanejo



Meninos costumam crescer em meio a uma série de imposições da cultura machista. Uma das mais disseminadas é a de que homens não devem chorar, para não correr o risco de ter sua masculinidade afetada. Vejam só o paradoxo: o choro, que ajuda a aliviar o sofrimento e dispensa as palavras, deveria fazer todo o sentido para os homens – afinal, todas nós sabemos que falar sobre sentimentos não está no ranking de preferências deles, né? Pois bem, algumas lágrimas os poupariam do falatório que as mulheres, por outro lado, adoram.

Ironicamente, em uma de suas canções, Frejat afirma que “homem não chora”, admitindo, por outro lado, já ter “ajoelhado no chão” pela mulher perversa que o traiu, o pisoteou, transmitiu-lhe HPV e o deixou “com o coração na mão”. Mesmo não querendo dar o braço a torcer e sequer cogitando pedir perdão (ah, o orgulho!), o vocalista do Barão admite o “rosto vermelho e molhado” após tamanha decepção. Apesar de bela a letra, cá entre nós, ninguém retrata melhor o sofrimento masculino que os cantores sertanejos. Estes, sim, conhecem as palavras ideais para embalar nossos piores momentos de fossa e baixa autoestima. Homens, vocês não imaginam o quanto ajuda, nessas horas, trancafiar-se na solidão de um quarto escuro, abraçada a uma caixa de trufas de cereja, ao som de Chrystian & Ralf. “Sensível demais, eu sou um alguém que chora, por qualquer lembrança de nós dois”... é disso que eu estou falando.

Chitãozinho e Xororó também sabem o que é sofrer por amor – eu diria, inclusive, que se houvesse um pódio para prestigiar os sertanejos mais entendidos no assunto, provavelmente eles estariam lá, no mais elevado nível da plataforma. O clássico Evidências fala sobre a aflição de um homem – orgulhoso por natureza –, que diz já ter deixado de amar e não querer mais, quando na verdade ama, quer, mas tem medo de dar seu coração à amada, com receio de vê-lo despedaçado. E o drama não pára por aí: o pobre deixa evidente uma leve tendência suicida, ao dizer que não pode imaginar o que será de sua vida, se um dia perder sua gata. É, não se fazem mais românticos como antigamente; que dão valor até mesmo ao vestido velho da mulher amada e ao restinho do perfume dela, que ficou no frasco; que se entristecem ao encontrar um simples fio de cabelo comprido no paletó – cabelo este que já esteve grudado no suor compartilhado nas mais sórdidas noites.

Mas existe algum homem chifrado ou abandonado que não se sinta machucado? “Pense em mim, chore por mim, liga pra mim... não, não liga pra ele”, suplicaram tantas vezes Leandro e Leonardo. Sem falar nos convites para pegar o primeiro avião com destino à felicidade – atitude típica de quem não aprendeu a dizer adeus, mesmo sabendo que amores vêm e vão; são aves de verão. Chutes na bunda ou chifres à parte, estas não são as únicas razões do sofrimento masculino. Engana-se quem pensa que, por evitarem as famosas D.R.s, os meninos não ficam magoados com brigas e discussões. Zezé di Camargo e Luciano estão aí para comprovar: a ferro e fogo não dá! Com tanta indiferença, vemos a vida passar e esquecemos as coisas realmente importantes. Sim, porque todo mundo sabe que 90% das discussões de casal ocorrem por motivos banais, como a toalha molhada em cima da cama, a sogra megera ou a cerveja com os amigos. Tropeços e tropeços, pedras no caminho. E quando o clima esquenta, é normal que palavras desnecessárias se percam no ar. Nos casos mais extremos, se não há possibilidade de trégua, assino embaixo do que diz Zezé: não há por que remediar o fim; é bem melhor perder.

Para terminar, há os mais dramáticos, que se descabelam e se jogam no chão. Daniel é do tipo que escreve mil cartas, espera a chuva passar, mas não permite que o tempo apague as marcas do passado. O fato de não conseguir fascinar seu objeto de desejo eleva o nível de desespero do infeliz, a ponto de se jogar no chão da sala de estar. Sim, ser ignorado dói – muito mais que extrair um dente do siso sem anestesia. É preferível ser esbofeteado, agredido com palavrões, esculachado, esculhambado, zurzido. Quando o alvo de nossos mais puros sentimentos já não reage, dificilmente há solução. Conselho de amiga: se a pessoa prefere até mesmo cutucar o ouvido com a chave do carro ao invés de respondê-lo, desista. A dica vale não apenas para os chorões, mas também às choronas de plantão – afinal, todo e qualquer ser humano está sujeito a desilusões, independente do sexo. E, nessas horas, é permitido encarnar Edson e Hudson e virar um litro de cachaça por dia, para esquecer a dor do amor – só tome cuidado para não confundi-los com Bruno e Marrone e acabar dormindo na praça. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O tipo ideal para cada ocasião: coisa do passado


Árvores de Natal, renas puxando trenós e gorduchos vestidos de Papai Noel não me comovem. Não dou a mínima para datas comemorativas e confesso que só compro presentes no Dia das Mães e dos Pais para não sair mal na foto. Há algum tempo, deixei de me importar até mesmo com o meu aniversário e, depois de 27 primaveras promovendo festas malucas e sendo odiada pelos vizinhos incomodados com a bagunça, no ano passado não organizei nenhum evento para celebrá-lo. Entretanto, por mais que eu lute piamente contra isso, a passagem do ano, as datas comerciais e o Natal sempre me fazem refletir sobre coisas que vivi nos 365 dias anteriores. Dessa vez, de um modo diferente, pois meu 2013 foi marcado por muitas decisões e mudanças. Saí da zona de conforto, varri para longe o que não me servia mais e devolvi uma quantidade significativa de oferendas à Iemanjá. Causou-me surpresa reler textos antigos que escrevi: dei passos importantes e mudei minha visão sobre muita coisa. Por essa razão, inicio 2014 fazendo considerações a respeito de um deles, ou seja: pondo em xeque minhas próprias teorias.

Em 18 de outubro de 2012, procurei tipificar a diversidade de modelos masculinos, para verificar se há tipos de homens ideais para ocasiões específicas: o homem perfeito para namorar, o cara que não oferece nada além de diversão, o bom de cama, a companhia ideal para o boteco, entre outros. Hoje vejo que essa distinção não é válida, pois todos somos seres multifacetados, sujeitos a vários papeis ao longo de nossa existência – embora predomine um, podemos atuar em muitos. Contra minhas próprias convicções do passado, acredito hoje que o personagem que interpretamos (seu papel) é determinado pelo personagem com quem contracenamos. Trocando em miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamam de “planejado”; quando a pessoa que só serve para diversão se depara com aquela que é seu número, é possível que ela se transforme. Em um piscar de olhos, pode, sim, se tornar perfeita para coisa séria – e digo isso amparada em vários casos de amigos malandrinhos que viraram homens de uma mulher só, quando seus coraçõezinhos bandidos falaram mais alto.

Por outro lado, o contrário também pode acontecer. Certa vez, conheci uma garota que, após um longo período de bebedeiras diárias, sentiu-se exausta pelas madrugadas na balada, que lhe roubavam horas de sono e lhe estampavam frequentemente um semblante de urso panda. Foi então que decidiu seguir na direção oposta: só um namorado poderia salvar-lhe da vida boêmia. Em uma de suas aventuras frustradas nesse sentido, deixou-se levar por um tipo “perfeito para namorar”. Menino bonito, responsável, independente, bem sucedido profissionalmente e ambicioso na medida certa. Um desses caras que costumam chamar a atenção despretensiosamente na balada. Não demorou para que ele a chamasse para jantar, o que gerou grande ansiedade e expectativa. A noite foi agradável, mas não teve nada de especial. Ela tentou novamente e nada mudou. As investidas seguintes foram entediantes, a ponto de a sôfrega criatura torcer para levar um bolo sempre que combinavam algo. Após vários convites, inclusive para viagens românticas e coisas do gênero, ela decidiu esfriar gradualmente seu comportamento com o gentil rapaz, até deixa-lo definitivamente no vácuo e visivelmente chateado. Resultado: ela comprou um CD do Nelson Gonçalves, que até hoje lhe acompanha no carro, a caminho da balada: “boemia, a que me tens de regresso...”. Ainda pior que esse tipo de engano é o da estória do lobo em pele de cordeiro, que está calcada na realidade, não apenas na ficção bíblica, literária ou dos desenhos animados. Até mesmo as fêmeas mais inteligentes já caíram na conversa desses falsos cordeirinhos – lembrei-me de Drummond: suspeito que, do que me dizes, tudo é teatro. A verdade é que não existe tipo ideal para cada ocasião. O que existe, sim, é tipo ideal para a gente fugir – como aquele que só liga na madrugada, no desespero evidente de quem não conseguiu pegar ninguém e entrou em contato com o plano B: no caso, você.

Por mais que desejemos, algumas coisas são impossíveis de prever. O pândego que diverte a roda de amigos no boteco pode não passar de um grosseirão na intimidade, não habilitado para uma convivência harmoniosa; o sarado com cara de máquina de sexo pode ser brocha e o sedutor com pinta de Don Juan pode não passar de um gay mal resolvido em busca de alguém que lhe faça parecer macho. Uma dose de atenção é necessária, mas não garante sucesso absoluto. Usando as palavras de Guimarães Rosa, “não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma”.