terça-feira, 19 de agosto de 2014

Um de tantos Severinos

Caros leitores, hoje meu estado psicológico resultou em um texto inusitado, diferente dos demais publicados. Pensei em assuntos mais alegres para abordar, mas este foi o tema que prevaleceu, dadas as circunstâncias. Não deixa de seguir nossa temática habitual, porém desta vez decidi falar sobre outro tipo de relacionamento. Creio que muitos se identificarão com as palavras abaixo.


Dói horrores a morte – às vezes mais do que esperávamos. Não a morte propriamente dita; mais justo é culpar as boas lembranças pelo sofrimento. Recordar as férias longe de casa, recebendo toda a atenção e os agrados daqueles que, dizem, “deseducam-nos”. Tornam-nos ainda mais mimados ao fazer todas as nossas vontades. Mas quem disse que excesso de amor deseduca? Tudo bem, em algumas oportunidades eles extrapolam os limites. Deixam-nos pintar suas caras como as dos índios e até aceitam dar uns pulinhos com um chocalho nas mãos. Presenteiam-nos em datas quaisquer, só para satisfazer o desejo despertado pelos comerciais de televisão, que abusam da persuasão ao apresentar brinquedos de última geração, cujo futuro próximo é o abandono em algum canto da casa. Levam-nos passear no carrinho de madeira, aquele mesmo usado para vender produtos de limpeza pela vizinhança. Acham graça quando corrigimos suas palavras erradas, o uso do “R” no lugar do “L”. E nós, perspicazes desde cedo no quesito travessura, aproveitamos o fato de morar longe – e dar as caras apenas nas férias ou feriados – para tirar vantagem dos outros primos, que acabam levando a culpa quando alguém “misterioso” apronta alguma, mesmo não sendo eles.

Ao pensar na lacuna representada pela juventude, quando nos desligamos um pouco deles, acreditando que eram imortais pelo simples fato de estar tudo bem, não bate apenas a saudade, mas também um sentimento de culpa por não ter aproveitado cada possibilidade de estar junto. Nem cogitamos que um dia alguém irá telefonar, comunicando tristes novidades: a fragilidade de seus corpos, os primeiros sintomas de alguma doença, o esquecimento, as quedas ocorridas durante o desempenho de tarefas que antes eram simples, os exames, as cirurgias. É quando os lamentos e a preocupação vêm em mão dupla: ao admitirmos a proximidade de sua morte e ao concluirmos que, amanhã, será a vez daqueles que nos pariram.

Há 20 dias, quando a exaustão provocada por uma cama de hospital terminou de sugar os farrapos de força que o mantinham vivo, foi impossível não recordar aquele 11 de maio, última vez que o vi. Constatar o que o tempo fez com o senhor deixou-me assolada. A volta para casa foi penosa, finalmente entendi o que estava acontecendo. Sofri de longe, não voltei mais, fui covarde e não quis ser confrontada novamente pela realidade. Afinal, se a imagem de sua debilidade derrubou-me daquela forma, como não me negar a vê-lo deitado, sem vida, em uma caixa de madeira? Deixei de ir, não porque não o amava, mas porque meu amor e minha dor eram tão imensos, que preferi guardar apenas as lembranças (tão belas!) da infância. 

“E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte Severina”. Mas o senhor, Vô Severino, teve muito mais sucesso que o retirante de João Cabral de Melo Neto: não morreu “de velhice antes dos trinta”; foi agraciado com uma longevidade que lhe possibilitou 92 anos – muito bem vividos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Você pode até tentar, mas não é uma pessoa séria

Todo mundo passa por uma fase em que sente que está perdendo o controle da vida social (geralmente bebendo demais, se drogando demais ou o que quer que seja) e, por isso, acaba achando que pode solucionar o problema levando a sério o primeiro cara (ou guria) que disser algo bonito, no momento em que tudo parecer estar prestes a desabar. Qualquer mensagem que anteriormente soaria como a coisa mais tosca do mundo pode virar o início de um relacionamento que, de cara, parecerá uma luz no fim do túnel. Mas, acreditem, tem tudo pra ser o seu pior pesadelo, como uma verdadeira transformação do amor da sua vida em um carrapato enlouquecedor, em uma questão de meses.
Essa pessoa que chegou de mansinho e se aproveitou do seu momento de fraqueza tem 90% de chances de ser carente. E eu não preciso explicar pra um maior de idade aonde dar moral pra pessoas carentes vai te levar, preciso? Todo mundo aqui já deve ter cedido aos encantos de um(a) encalhado(a) pensando que ia, assim, parar de ouvir piadinhas infames da família sobre sua situação alcoólica nos almoços de domingo.
Acontece que ninguém aguenta muito tempo se fazendo de mais sério e responsável do que realmente é, simplesmente pelo fato disso ter nascido com a gente, fazendo parte de um pedacinho fundamental de nossas personalidades. Você se faz de santo aqui, pra ganhar flores e bombons, mas, quando sequer tiver a capacidade de perceber, estará olhando para o entregador de pizza com os mesmos olhos do pedreiro mais tarado, que te olhou na rua esses dias fazendo-a sentir nojo.
Você pode se afastar das pessoas com as quais já se relacionou intimamente, beber menos, sair de casa apenas pra trabalhar, mas, quando tiver uma oportunidade de olhar pra um homem que não te cobra nada, o fará sem pensar duas vezes. E ele nem precisará ser bonito, porque o que vai te atrair será simplesmente o fato dele não te pedir absolutamente nada.

Amar é algo sobre o qual não se deve comentar, pois cada um faz do jeito que bem entender. Mas uma coisa é fato: ninguém ama em três dias e, na maioria dos casos, não dura pra sempre. Estar com alguém por achar que, assim, vai ser mais digno de respeito, é pedir pra se sentir preso e acabar sem vida sexual e sem amigos. Se não "dá pra coisa", desista.
  

terça-feira, 8 de abril de 2014

Desmitificando frases prontas sobre relacionamentos



Compartilhar experiências sobre relacionamentos é tentador! Aconselhar as amigas, analisar as situações apresentadas por elas e dar dicas de como agiríamos se estivéssemos no lugar delas é um hábito tipicamente feminino. Já perdi a conta de quantos leitores, homens e mulheres (conhecidos e desconhecidos), relataram-me seus dramas e questionaram-me sobre como prosseguir. Confesso que já pequei em muitas situações, dando conselhos sobre os quais acabei passando por cima, quando a protagonista do dilema era eu. Sem falar nas mudanças de opinião, acerca de ideias que um dia pensei ter convicção. A frase é batida, porém verdadeira: relacionamentos não são ciências exatas; portanto, é mais seguro deixar os “achismos” guardados em nossas cabecinhas pensantes, ao invés de bancar os especialistas e sair dando conselhos por aí. Como exemplos de teorias altamente contestáveis, cito abaixo cinco muito comuns nas mesas redondas sobre relacionamentos:

1)      Não vou namorar (nem o Brad Pitt, se ele quiser); estou num momento de curtir e nada mais.
Esse é um dos maiores equívocos que podemos cometer, até porque namoro é o tipo de coisa que não se planeja. Quem sai à caça de um namorado só pode estar fora do juízo. Atirar para todos os lados é típico de quem quer encher a infinita linguiça da vida e nada mais. Amarrar-se ao primeiro ser “pegável” é sintoma de carência, exaustão por viver na balada atrás de um rabo de saia ou ânsia de se “encostar” em alguém que possa suprir suas necessidades financeiras (acredite: isso existe; quem leu o texto sobre as alpinistas sociais, publicado há alguns meses, sabe do que estou falando). Quem se sente bem na própria pele não se contenta com relações mornas, sustentadas na companhia de pessoas mais ou menos. Compromissos dão trabalho; por que alguém assumiria um se não houvesse compensação? O comprometimento deve ser uma consequência da vontade de estar junto, da química e de um conjunto de afinidades ou outros bons motivos que, quando surgem, são facilmente perceptíveis. Em pouco tempo, torna-se simples identificar o que não passa de uma aventura e o que pode ter futuro. Não existe momento para curtir ou namorar – existem, sim, pessoas para curtir ou namorar. Se está há meses com alguém e não sente vontade de dar um passo adiante, pode escrever: o lance está com os dias contados. Quando é para rolar, nenhum empecilho é forte o suficiente – nem mesmo o fato de um dos dois envolvidos estar de mudança para Cochabamba. Se o cara vier com papo furado, alegando ter-se separado recentemente, estar trabalhando demais, estudando para um concurso dificílimo ou coisa parecida, desencane! Uma amiga foi vítima dessa conversa e, poucos dias depois, lá estava o palhaço “em um relacionamento sério” no Facebook. Com outra, é claro!

2)      Nunca lavarei cueca de homem nenhum!
Desde quando lavar cueca torna uma mulher pior? Pois é, já critiquei muitas delas por isso. Num passado não muito distante, considerava essa atitude um ato de submissão. Saí da casa dos meus pais repetindo o mantra “nunca lavarei cuecas, nunca lavarei cuecas” e, semanas depois, lá estava eu, entretida no tanque, cercada de roupas de baixo masculinas, que aguardavam ansiosas minha atenção. Apesar de, até então, não deter qualquer conhecimento ou interesse pelos serviços domésticos (nem mesmo os básicos, como cozinhar feijão ou separar as roupas por cor antes de colocar na máquina), vale registrar aqui a alegria que senti ao ganhar uma lavadora – que aprendi a operar perguntando às minhas amigas via Whatsapp. Concluí que lavar roupas (inclusive as cuecas) é uma consequência natural da vida. E quem tem o privilégio de passar mais tempo em casa acaba se tornando responsável por uma parcela maior das tarefas domésticas. Parece clichê, mas a vida a dois é uma troca; nada mais justo que fazer algumas gentilezas a quem faz o mesmo por você.

3)      Quem traiu uma vez, trai sempre.
Trair nunca é legal, mas vale a pena pensar nos motivos que levaram alguém a fazê-lo. Se nenhum relacionamento é igual, não faz sentido pensar que sempre haverá razões para pular a cerca. Além disso, nem todos sentem a necessidade de confirmar se a grama do vizinho é realmente mais verde. Há ainda algumas particularidades de cada gênero. Crescemos ouvindo que os homens traem mais – verdade ou mentira, as mulheres costumam ser mais cruéis. Traem por vingança, especialmente quando se sentem inseguras em relação ao parceiro. Muitas chegam ao ponto de se vingar sem ter certeza de que estão sendo traídas, pois não querem correr o risco de ficar para trás. Entretanto, a mesma mulher que foi maquiavélica e vingativa em um relacionamento passado, não repetirá esse padrão de comportamento ao encontrar um homem que jogue limpo, seja carinhoso e atencioso, e não abra brecha para desconfiança. Não faz sentido pensar que, por já ter traído, ela terá reações pavlovianas líquidas a cada vez que tiver a oportunidade de pular na cama de um homem que não seja o seu. Resumindo: traição não é uma questão de índole. Independentemente do número de pilantragens que protagonize ao longo da vida, acho difícil acreditar que algum ser nasça inclinado a isso.

4)      Aquele que vive desconfiando do outro, é porque andou aprontando algo.
Conheço várias pessoas que já traíram e vivem com a pulga atrás da orelha por conta disso. É verdade que boa parte das pessoas que já pisou fora da linha costuma vigiar o Facebook do parceiro, em busca de algo que evidencie a mesma atitude por parte dele – para tirar o peso da consciência, quem sabe? Porém, há quem viva desconfiado mesmo nunca tendo traído. Desconfiança tem muito mais a ver com insegurança que com atitudes do passado. Quem nunca se sentiu indigno do que tem em casa? Aquele cara que tem o hábito de repetir que fulana é “muita areia” para o seu “caminhãozinho” é o mesmo que põe em cheque constantemente a honestidade da namorada.

5)      Transar nos primeiros encontros é desperdiçar a chance de um namoro.
Um conhecido sempre aconselhava as amigas solteiras que estavam em busca de um namorado: “não transe, em hipótese alguma, antes do terceiro encontro. Se possível, segure a periquita até o quinto”. O que dizer sobre isso? Valorizar o passe não garante nada, especialmente se o cara for do tipo conquistador, que perde o interesse quando consegue o quer. O homem esclarecido, por outro lado, dificilmente vai achar que, por ter transado com ele logo de cara, a mulher faz isso com todos. E este é mais um caso que envolve autoestima: será que é mais fácil pensar que a mulher é vagabunda, ao invés de se considerar um macho irresistível?

Além destas, há muitas outras crenças da série “nunca diga nunca”, que ministramos com empáfia ao longo da vida e, em algum momento, temos que engolir e voltar atrás. Eu mesma acabei de apagar o último parágrafo deste texto – que havia escrito há cerca de dois meses, tempo de sobra para mudar de ideia!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A base experiencial do sofrimento sertanejo



Meninos costumam crescer em meio a uma série de imposições da cultura machista. Uma das mais disseminadas é a de que homens não devem chorar, para não correr o risco de ter sua masculinidade afetada. Vejam só o paradoxo: o choro, que ajuda a aliviar o sofrimento e dispensa as palavras, deveria fazer todo o sentido para os homens – afinal, todas nós sabemos que falar sobre sentimentos não está no ranking de preferências deles, né? Pois bem, algumas lágrimas os poupariam do falatório que as mulheres, por outro lado, adoram.

Ironicamente, em uma de suas canções, Frejat afirma que “homem não chora”, admitindo, por outro lado, já ter “ajoelhado no chão” pela mulher perversa que o traiu, o pisoteou, transmitiu-lhe HPV e o deixou “com o coração na mão”. Mesmo não querendo dar o braço a torcer e sequer cogitando pedir perdão (ah, o orgulho!), o vocalista do Barão admite o “rosto vermelho e molhado” após tamanha decepção. Apesar de bela a letra, cá entre nós, ninguém retrata melhor o sofrimento masculino que os cantores sertanejos. Estes, sim, conhecem as palavras ideais para embalar nossos piores momentos de fossa e baixa autoestima. Homens, vocês não imaginam o quanto ajuda, nessas horas, trancafiar-se na solidão de um quarto escuro, abraçada a uma caixa de trufas de cereja, ao som de Chrystian & Ralf. “Sensível demais, eu sou um alguém que chora, por qualquer lembrança de nós dois”... é disso que eu estou falando.

Chitãozinho e Xororó também sabem o que é sofrer por amor – eu diria, inclusive, que se houvesse um pódio para prestigiar os sertanejos mais entendidos no assunto, provavelmente eles estariam lá, no mais elevado nível da plataforma. O clássico Evidências fala sobre a aflição de um homem – orgulhoso por natureza –, que diz já ter deixado de amar e não querer mais, quando na verdade ama, quer, mas tem medo de dar seu coração à amada, com receio de vê-lo despedaçado. E o drama não pára por aí: o pobre deixa evidente uma leve tendência suicida, ao dizer que não pode imaginar o que será de sua vida, se um dia perder sua gata. É, não se fazem mais românticos como antigamente; que dão valor até mesmo ao vestido velho da mulher amada e ao restinho do perfume dela, que ficou no frasco; que se entristecem ao encontrar um simples fio de cabelo comprido no paletó – cabelo este que já esteve grudado no suor compartilhado nas mais sórdidas noites.

Mas existe algum homem chifrado ou abandonado que não se sinta machucado? “Pense em mim, chore por mim, liga pra mim... não, não liga pra ele”, suplicaram tantas vezes Leandro e Leonardo. Sem falar nos convites para pegar o primeiro avião com destino à felicidade – atitude típica de quem não aprendeu a dizer adeus, mesmo sabendo que amores vêm e vão; são aves de verão. Chutes na bunda ou chifres à parte, estas não são as únicas razões do sofrimento masculino. Engana-se quem pensa que, por evitarem as famosas D.R.s, os meninos não ficam magoados com brigas e discussões. Zezé di Camargo e Luciano estão aí para comprovar: a ferro e fogo não dá! Com tanta indiferença, vemos a vida passar e esquecemos as coisas realmente importantes. Sim, porque todo mundo sabe que 90% das discussões de casal ocorrem por motivos banais, como a toalha molhada em cima da cama, a sogra megera ou a cerveja com os amigos. Tropeços e tropeços, pedras no caminho. E quando o clima esquenta, é normal que palavras desnecessárias se percam no ar. Nos casos mais extremos, se não há possibilidade de trégua, assino embaixo do que diz Zezé: não há por que remediar o fim; é bem melhor perder.

Para terminar, há os mais dramáticos, que se descabelam e se jogam no chão. Daniel é do tipo que escreve mil cartas, espera a chuva passar, mas não permite que o tempo apague as marcas do passado. O fato de não conseguir fascinar seu objeto de desejo eleva o nível de desespero do infeliz, a ponto de se jogar no chão da sala de estar. Sim, ser ignorado dói – muito mais que extrair um dente do siso sem anestesia. É preferível ser esbofeteado, agredido com palavrões, esculachado, esculhambado, zurzido. Quando o alvo de nossos mais puros sentimentos já não reage, dificilmente há solução. Conselho de amiga: se a pessoa prefere até mesmo cutucar o ouvido com a chave do carro ao invés de respondê-lo, desista. A dica vale não apenas para os chorões, mas também às choronas de plantão – afinal, todo e qualquer ser humano está sujeito a desilusões, independente do sexo. E, nessas horas, é permitido encarnar Edson e Hudson e virar um litro de cachaça por dia, para esquecer a dor do amor – só tome cuidado para não confundi-los com Bruno e Marrone e acabar dormindo na praça. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O tipo ideal para cada ocasião: coisa do passado


Árvores de Natal, renas puxando trenós e gorduchos vestidos de Papai Noel não me comovem. Não dou a mínima para datas comemorativas e confesso que só compro presentes no Dia das Mães e dos Pais para não sair mal na foto. Há algum tempo, deixei de me importar até mesmo com o meu aniversário e, depois de 27 primaveras promovendo festas malucas e sendo odiada pelos vizinhos incomodados com a bagunça, no ano passado não organizei nenhum evento para celebrá-lo. Entretanto, por mais que eu lute piamente contra isso, a passagem do ano, as datas comerciais e o Natal sempre me fazem refletir sobre coisas que vivi nos 365 dias anteriores. Dessa vez, de um modo diferente, pois meu 2013 foi marcado por muitas decisões e mudanças. Saí da zona de conforto, varri para longe o que não me servia mais e devolvi uma quantidade significativa de oferendas à Iemanjá. Causou-me surpresa reler textos antigos que escrevi: dei passos importantes e mudei minha visão sobre muita coisa. Por essa razão, inicio 2014 fazendo considerações a respeito de um deles, ou seja: pondo em xeque minhas próprias teorias.

Em 18 de outubro de 2012, procurei tipificar a diversidade de modelos masculinos, para verificar se há tipos de homens ideais para ocasiões específicas: o homem perfeito para namorar, o cara que não oferece nada além de diversão, o bom de cama, a companhia ideal para o boteco, entre outros. Hoje vejo que essa distinção não é válida, pois todos somos seres multifacetados, sujeitos a vários papeis ao longo de nossa existência – embora predomine um, podemos atuar em muitos. Contra minhas próprias convicções do passado, acredito hoje que o personagem que interpretamos (seu papel) é determinado pelo personagem com quem contracenamos. Trocando em miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamam de “planejado”; quando a pessoa que só serve para diversão se depara com aquela que é seu número, é possível que ela se transforme. Em um piscar de olhos, pode, sim, se tornar perfeita para coisa séria – e digo isso amparada em vários casos de amigos malandrinhos que viraram homens de uma mulher só, quando seus coraçõezinhos bandidos falaram mais alto.

Por outro lado, o contrário também pode acontecer. Certa vez, conheci uma garota que, após um longo período de bebedeiras diárias, sentiu-se exausta pelas madrugadas na balada, que lhe roubavam horas de sono e lhe estampavam frequentemente um semblante de urso panda. Foi então que decidiu seguir na direção oposta: só um namorado poderia salvar-lhe da vida boêmia. Em uma de suas aventuras frustradas nesse sentido, deixou-se levar por um tipo “perfeito para namorar”. Menino bonito, responsável, independente, bem sucedido profissionalmente e ambicioso na medida certa. Um desses caras que costumam chamar a atenção despretensiosamente na balada. Não demorou para que ele a chamasse para jantar, o que gerou grande ansiedade e expectativa. A noite foi agradável, mas não teve nada de especial. Ela tentou novamente e nada mudou. As investidas seguintes foram entediantes, a ponto de a sôfrega criatura torcer para levar um bolo sempre que combinavam algo. Após vários convites, inclusive para viagens românticas e coisas do gênero, ela decidiu esfriar gradualmente seu comportamento com o gentil rapaz, até deixa-lo definitivamente no vácuo e visivelmente chateado. Resultado: ela comprou um CD do Nelson Gonçalves, que até hoje lhe acompanha no carro, a caminho da balada: “boemia, a que me tens de regresso...”. Ainda pior que esse tipo de engano é o da estória do lobo em pele de cordeiro, que está calcada na realidade, não apenas na ficção bíblica, literária ou dos desenhos animados. Até mesmo as fêmeas mais inteligentes já caíram na conversa desses falsos cordeirinhos – lembrei-me de Drummond: suspeito que, do que me dizes, tudo é teatro. A verdade é que não existe tipo ideal para cada ocasião. O que existe, sim, é tipo ideal para a gente fugir – como aquele que só liga na madrugada, no desespero evidente de quem não conseguiu pegar ninguém e entrou em contato com o plano B: no caso, você.

Por mais que desejemos, algumas coisas são impossíveis de prever. O pândego que diverte a roda de amigos no boteco pode não passar de um grosseirão na intimidade, não habilitado para uma convivência harmoniosa; o sarado com cara de máquina de sexo pode ser brocha e o sedutor com pinta de Don Juan pode não passar de um gay mal resolvido em busca de alguém que lhe faça parecer macho. Uma dose de atenção é necessária, mas não garante sucesso absoluto. Usando as palavras de Guimarães Rosa, “não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma”. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Entre quatro paredes... quem disse que vale tudo?



Mulheres têm nojo de barata, de sapo e de lagartixa – bem, espero não ser a única. Não comem qualquer coisa, pensando nas inúmeras bactérias que habitam alimentos preparados sem as devidas condições de higiene. Não sentam no vaso sanitário quando são obrigadas a fazer suas necessidades fisiológicas em banheiro público – aqui cabe registrar que o cansativo exercício de apoiar as mãos nas paredes para manter o equilíbrio tem seu lado bom: o efeito é o mesmo que o de algumas sessões de agachamento, mas ocorre naturalmente, sem que seja necessário calçar um par de tênis e abandonar o estado de torpor comum aos menos fanáticos por malhação, para se arrastar até a academia mais próxima. Entretanto, quando o assunto é sexo, não há como escapar de situações como o atrito entre as peles, a troca de fluídos corporais, o suor e odores diversos. Encerrar esse tipo de atividade com o cabelo impecável e o make-up intacto é uma missão tão impossível, que nem Tom Cruise se fosse mulher sairia ileso – cá entre nós, não há penteado que resista a uma boa pegada. Preocupações descabidas  como essas e muitas outras podem até parecer coisa de mulherzinha, mas, rebeldias capilares à parte, certas frescuras durante o ato sexual não são exclusividade feminina. Acreditem, há muito homem reprimido solto no mundo. Já acreditei que tamanho P, “pressa” e falta de criatividade poderiam ser os únicos detalhes a decepcionar em um homem. Até ser surpreendida por relatos absurdamente broxantes, como os que revelarei a seguir:

O maníaco por banho
Todos nós sabemos que tomar banho é uma necessidade básica, mesmo quando não há segundas intenções. Poucas coisas podem ser piores que exalar odores desagradáveis ou senti-los enquanto a outra pessoa está se despindo. Porém, a preocupação do protagonista desse parágrafo era tão exagerada, que seu hábito virou motivo de reclamação da namorada, que se dizia incomodada com a previsibilidade do Sr. Limpinho. Segundo ela, era como se ele seguisse sempre um mesmo roteiro, desde as posições até a ordem em que as mesmas eram colocadas em prática. Com ele, não existiam episódios repentinos; acontecia tudo na mesma Bat-hora e no mesmo Bat-local. As rapidinhas eram tão proibidas quanto eram consideradas as publicações do Index pela Igreja Católica do século XVI – a menos que ambos tivessem acabado de tomar uma ducha. Tal comportamento também reprimia a menina, que se sentia impedida de ousar, propondo transas em horas e lugares improváveis, se não houvesse um chuveiro por perto. O que nosso amigo não sabia é que mulheres adoram ser surpreendidas, não apenas com flores e chocolates, mas principalmente com uma pegada mais forte num momento inesperado. Mesmo que não tenham coragem de falar abertamente, meus caros leitores, o que todas desejam é escapar da cama para profanar a mesa da sala de jantar, a bancada da cozinha e o banco do carro. Portanto, aprendam de uma vez por todas: regular o mercúrio dos bons modos, nessas horas, tende a ser tedioso.

O que não dividia o chuveiro
Um segundo relato envolvendo banho me leva a crer que esse pode ser um momento sagrado para algumas tribos. Desta vez, o personagem principal tinha como “particularidade” (digamos que esta é minha forma de abusar do eufemismo para mencionar sua esquisitice) o fato de se recusar a dividir o chuveiro com a mulher. A justificativa era que ele não se sentia à vontade lavando as partes baixas na presença dela. Preciso dizer mais alguma coisa? Ah..., preciso. O mesmo cara que não se permitia tomar uma chuveirada com uma dama se recusava a beijar a esposa depois de ser contemplado com uma sessão de sexo oral. Segundo a versão da vítima, o bruto era categórico ao afirmar o nojinho de seu próprio bilau.

O que tinha medo de ficar oleoso
Alguns artigos de sexshop podem ser assustadores, tanto para os homens quanto para as mulheres. Por outro lado, boa parte deles é inofensiva. É o caso dos óleos corporais, que possuem variadas versões, desde as aromatizadas e comestíveis, até aquelas que intensificam o calor ou provocam rápido esfriamento nas regiões onde são aplicadas. Em um 12 de junho qualquer, uma amiga resolveu investir em um kit de óleos para massagem, com o intuito de surpreender o excêntrico namorado. Foi só tirar os produtos da bolsa, que o indivíduo fez cara de asco e disse que NEM A PAU ELA IRIA PASSAR AQUELA COISA nele. A menina até tentou convencê-lo do contrário, porém sem êxito. O grosseirão mostrou-se irredutível e disse que não queria ficar oleoso. Resultado: virou motivo de piada na roda de amigas da namorada e subsídio para esse texto.

Talvez pela velocidade com que começam e terminam, hoje em dia é comum que os relacionamentos venham acompanhados de surpresas – afinal, pode nem dar tempo de conhecer a fundo as pessoas com quem nos relacionamos. Da mesma forma como alguns casais acabam descobrindo uma química eletrizante, outros parecem incompatíveis sexualmente, por maiores que sejam a boa vontade e a atração física. Nem sempre conseguimos acertar, mas rever nossos conceitos de tempos em tempos pode ajudar. Algumas lições devem ser revistas – e uma delas tem tudo a ver com aquele velho ditado: “nunca digas dessa água não beberei”. Isso porque, ao longo do caminho, tendemos a contrariar nossas próprias expectativas, o que é ótimo, principalmente quando deixamos de lado nossos temidos e inquisidores tribunais. Não faz sentido medir a qualidade moral de um indivíduo pelo teor de seus atos ou desejos – ou seja: esqueça o pudor excessivo, pois isso não vai ajudá-lo a meter a cara na máscara da santidade; vai apenas levá-lo a um relacionamento morno, fadado ao fracasso. Sexo bom é o livre de preconceitos, regras e atitudes premeditadas. É aquele que revela feras dentro de cães acorrentados, incentivando os envolvidos a testarem seus limites. Não tem a ver apenas com hora ou lugar, mas sim com todos os outros itens que habitam essa atmosfera de eterna curiosidade, na qual qualquer farelo de convicção deve ser deixado para trás.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A ditadura que tira os homens do sério


Pensar nos publicitários responsáveis pelas campanhas de desodorante em geral faz-me sentir vergonha alheia. Garantias de “axilas macias” ou “suaves” só não são piores que dizem proteger do mau odor por 48 horas – tomar banho pra quê? Certa vez, quando folheava uma revista, avistei o anúncio de um produto que prometia “sensualizar” as nada atrativas cavidades abaixo dos braços. Tentei pensar em alguém que usasse as axilas como arma de conquista, ou que se sentisse atraído por essa parte, digamos, tão insignificantes do corpo humano. Pouco depois, descobri que a irrelevância das axilas pode até fazer sentido para mim, mas sua aparência é importante para nada menos que 95% das mulheres. É o que diz uma pesquisa “global” encomendada por uma marca de antitranspirantes – suspeito, não?

Mas a surpresa não pára por aí, cara leitora. Deparei-me com outro anúncio, que prometia “axilas livres para curtir a vida”. Ele trazia o depoimento de uma suposta consumidora, que afirmava que o fato de sentir suas axilas bonitas transmitia-lhe a sensação de liberdade. Ou seja: axilas bem cuidadas e o direito de escolher fazer ou não fazer qualquer coisa caminham juntos! Entretanto, em tempos de ditadura ferrenha da beleza, as axilas parecem ser a menor preocupação das mulheres reais. E o que pouco se costuma comentar é que certos comportamentos resultantes da preocupação excessiva com a aparência podem afetar, além da autoestima, os relacionamentos interpessoais. Vejamos como:
 

Escravidão à chapinha

Caetano e milhares de outros homens estão cheios de vontade de ficar mais um instante debaixo dos caracóis dos seus cabelos. Mesmo assim, você e milhares de outras mulheres insistem em destruí-los quase que diariamente com a “bendita” chapinha. Mesmo tendo plena consciência de que o milagre é momentâneo, pois até o Silvio Santos – que, reza a lenda, usa peruca – sabe, sem que o Jassa precise alertá-lo, que esse tipo de processo faz os fios fritarem e pedirem socorro, tornando-os mais secos e esturricados a cada dia.

Anos atrás, alguma alma viva do mundo da moda resolveu ressuscitar a “onda” do cabelo liso. E não bastava ser liso; tinha que ser completamente chapado, o que significa que qualquer ondulação era sinônimo de descuido. Como nem todo mundo possui esse atributo, vale lembrar que alongar os cachos demanda tempo e esforço. Sem falar no agravante calor – vai dizer que você nunca sofreu com o jato quente do secador ou o vapor da chapinha, enquanto o sol brilhava lá fora e os termômetros ultrapassavam os 30 graus? Nessas situações, não há ar-condicionado que dê jeito!

O verão é um dos maiores pesadelos das escravas da chapinha. Não só o verão. A chuva. A garoa. O sereno. E praticamente toda e qualquer precipitação ou condição do tempo. Nas estações mais quentes – parafraseando Caetano mais uma vez –, morre a vontade de tocar a areia branca com os pés; de molhar os cabelos na água azul do mar. Você e eu sabemos disso. A magia dos dias ensolarados à beira da piscina se perde em meio à preocupação com os fios alisados, que têm vontade própria e insistem em voltar à forma original ao primeiro sinal de suor.

Acho graça quando recordo as tardes na piscina de casa, antes de assumir meu cabelo rebelde, que mantinha impecavelmente preso em um coque ou rabo de cavalo, evitando molhá-lo desta forma. Eu não me permitia ser atingida pela água acima dos ombros e, confesso, a diversão nunca era completa. Era como ir ao Rio de Janeiro e não visitar o Cristo; como ir à balada e não beber nem uma cervejinha; como ganhar na MegaSena e não retirar o prêmio; como transar e não gozar. Mais patéticos que isso eram os dias de chuva, quando eu não estava devidamente prevenida com um guarda-chuva e precisava encontrar outro jeito de enfrentar a maior vilã dos cabelos lisos. Sentia-me em uma luta desleal e, sem outra arma em mãos, protegia-me com o primeiro objeto que encontrasse pela frente: jaqueta, bolsa, blusa... já tirei muito casaco (e passei frio) para jogar na cabeça e evitar uma tragédia pior.

Depois de tanto ler sobre cabelos, você deve estar pensando como isso pode atrapalhar os relacionamentos afetivos. A resposta é simples: mais insólito que nascer com cabelo liso é arrumar namorado ou marido paciente. E quem nunca perdeu a hora e chegou atrasada a um compromisso, por perder muito tempo domando a cabeleira? Para nossa tristeza, a maioria dos homens não é compreensiva com os dramas femininos. Noventa e nove por cento odeia esperar e, quando o faz, o faz reclamando e pressionando – é justamente nessas horas que borramos o delineador ou espirramos enquanto passamos rímel. Eu já conheci os dois lados da moeda (o bruto e o paciente) e, vida após trauma, hoje sou grata ao que a vida me reservou. Portanto, se você tem a mesma sorte, seja uma boa menina!
 

Curvas derrapantes

Quem não quer ter peitão, bundão, pernão e cinturinha? Mesmo sabendo que se trata de utopia, continuamos sonhando com um corpo de capa de revista (esquecendo que nenhum deles, hoje em dia, escapa do milagroso Photoshop). Diante de nós, há inúmeros exemplos de cantoras que retiram costelas para afinar a cintura; de atrizes que trocam as próteses de silicone como quem troca de roupa; de “panicats” que abusam de suplementos sem qualquer preocupação aparente, para ter coxas de jogador de futebol. Falamos em “juntar a fome com a vontade de comer”, mas estamos sempre de dieta. E, cá entre nós, qual é a graça de sair com alguém que impõe mil restrições à vida social? Que tipo de lugar freqüenta quem não come nada além de algumas folhas de rúcula com tomate seco – a propósito, se alguém realmente tiver interesse em saber, pergunte à Adriane Galisteu, que jura de pés juntos estar há anos comendo só isso.

Recentemente, senti pena de um homem rechonchudo que vi em um restaurante, acompanhado de uma mulher esquálida que mal mexia no prato e pedia uma lata de guaraná atrás da outra, obrigando o pobre a se virar sozinho com a garrafa de vinho à mesa. Apesar de seu semblante tranquilo, de quem provavelmente curte a vida como ela é, sem se preocupar com as aparências, senti um pouco de tristeza no fundo de seus olhos. Provavelmente pela falta de uma boa parceira de copo e de garfo. Pensando melhor, talvez isso sequer tenha passado pela cabeça dele. Provavelmente, minha teoria tenha alguma ligação com o fato de nunca ter gostado de sair com gente que não bebe ou exagera nos cuidados com a alimentação. Mas tenho certeza quase absoluta de que não sou a única a broxar com isso.
 

Para o bem da humanidade, existe mulher que não priorize a estética. Que se preocupe mais em investir no autoconhecimento e em buscar relações verdadeiras, aceitando a própria realidade estética. Que fique claro que isso não representa uma crítica a quem se importa com a beleza (até mesmo porque faço parte desse time), nem dizendo que estas pessoas necessariamente deixem de lado as coisas genuinamente importantes. Os alvos de minha censura são aqueles que só se garantem usando os atributos físicos, que se submetem ao “teste do sofá” por não acreditar no próprio taco, que acham que os menos privilegiados pela genética não têm seu valor. Ser bonita é uma delícia, ser elogiada sem precisar passar em frente a uma construção também. Caprichar no cabelo e na maquiagem e sair linda na foto, quem não gosta? Mas ganhar meia hora de sono (nem que seja de vez em quando) ao invés de pular cedo da cama para fazer chapinha e passar massa corrida na cara é ainda melhor!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Da falta de vergonha ao alpinismo social


O enredo é conhecido: roupas caras, carro luxuoso e cara limpa cumprem um forte papel ao tornar o trabalhador braçal sedutor para a bela garota que o menosprezou. É assim que o vídeo “Como conquistar uma mulher” retrata uma prática muito comum entre o público feminino: o alpinismo social. Em função das raízes culturais, para muitas mulheres esse comportamento apenas reproduz o que ocorria no passado – quando os homens desempenhavam a função de provedor, garantindo que não faltasse comida à mesa de suas famílias, enquanto as esposas cuidavam do lar e dos filhos. Um longo caminho foi percorrido, até que se tornasse aceitável a uma fêmea trabalhar. Aceitável: pois muitas lutaram – e lutam até hoje – pela independência e pela igualdade dos sexos, enquanto parte da sociedade ainda abomina a ideia. O que não quer dizer que não exista um outro time: o das acomodadas, que preferem depender de uma figura masculina a buscar o próprio dinheiro. O tempo passou, o mundo mudou, mas alguma marca daquela época ficou.

Não é novidade que muita mulher leva em consideração o carro, profissão e até sobrenome de seu alvo, antes de assumir ou não um relacionamento. Os motivos que justificam tal atitude são variados –  a pressão familiar, o gosto pela ostentação e a falta de vontade de trabalhar representam apenas alguns deles. O que nem todos sabem é que existe homem que aprecie a companhia de alguém que tem seus cartões de crédito como principal interesse – o que lembrou-me de um conhecido que achava o máximo exibir a bela namorada como “comprovante de renda”, como se o fato de estar com ela, apesar de sua falta de atributos estéticos, fizesse todos ao seu redor acreditarem que ele era rico.

Por muito tempo não entendi as razões que levam um homem a sair com alguém que só quer saber de seus bens materiais. Hoje, acredito que a intenção de quem se submete a isso é estar sempre no controle, manipulando sua presa para que faça todas as suas vontades. E, como uma mão lava a outra, ao se deixar dominar, a mulher estaria assegurando suas regalias. Aos que não nasceram com os sobrenomes Marinho ou Orleans e Bragança, mas desejam conquistar o mosquetão, ou melhor, o coração de uma alpinista social, aí vão algumas dicas sobre o que elas mais gostam:

Carro - The ride
Talvez este seja o item que mais chame a atenção das interesseiras, o que simplifica as coisas para a ala masculina, levando em conta o crédito fácil e os financiamentos a longo prazo. Marias Gasolinas rejeitam veículos de pequeno porte, como C3 e Ka, por considerá-los “carros de menina”, sem poder de ostentação. A maioria prefere modelos sedan (Corolla e Civic, por exemplo), pressupondo que homens bem sucedidos profissionalmente usam esse tipo de carro para garantir uma imagem de austeridade.

Há uma particularidade em cidades do interior, onde é natural ver muitos marmanjos montados em suas caminhonetes (Hilux, Amarok e similares) devidamente identificadas por expressões como “cavalo de aço” – sério? Cavalo de aço? Você mandou fazer esse adesivo? Enfim, o que vem ao caso é o poder de tais exemplares, de fazer a imaginação das meninas galopar mais longe; afinal, eles também podem ser donos de inúmeros verdes pastos, onde se reúnem com seus amigos e chapéus aos fins de semana, para mascar gravetinhos e assar costelões madrugada afora, enquanto conversam sobre o cruzamento de bois zebu e nelore. Moradores de grandes centros urbanos podem até não acreditar, mas no interior o estilo agroboy é sucesso total. Aôôô potência!

Bebida
Traz a bebida que pisca! Na era do Rei do Camarote (como ficou conhecida uma triste figura de nome Alexander de Almeida, que diz gastar mais de R$ 50 mil por balada), quem bebe vodca já perdeu a majestade. Champanhe traz status. O jorro de fogo que sai do gargalo chama a atenção de longe, levando as alpinistas sociais ao delírio. Apesar de companhia ideal em qualquer ocasião – desde baladas e churrascos, até um despretensioso sábado no sofá –, a fama da cerveja é das piores. Nem as importadas escapam. Sim, nem mesmo as importadas.

Roupas
Enganam-se os que pensam que marcas caras são suficientes para impressionar uma alpinista social. De nada adianta ter asas, se não souber voar. Adquiridas as peças de grife, é hora de montar um visual de peso. Mulher interesseira é facilmente atraída pelo estilo executivo, de paletó e gravata – que, na minha opinião, mais parece funcionário de banco. Entretanto, para um evento mais descontraído, como um churrasco em uma tarde de verão qualquer, esse look torna-se inviável, podendo ser substituído pelas tradicionais calça cáqui e camisa pólo. As vestimentas devem vir acompanhadas de sapatênis ou mocassins (aqueles sapatinhos de gosto duvidoso, que só homens da terceira idade e o Rubem Fonseca em “A Coleira do Cão” vêem com bons olhos). Para arrematar a cara da riqueza, é só jogar um cardigã nas costas e voilà!

Mesmo conhecidos estes segredinhos, saber levar na conversa não deixa de ser essencial, homem que me lê! Portanto, se não for médico, advogado ou executivo de multinacional, use a velha profissão de empresário para impressionar. Se não for, minta que é; afinal de contas, quem tem empresa tem posses. Se todas essas dicas juntas não forem suficientes, medidas emergenciais e muito mais drásticas se fazem necessárias: trate de reservar camarotes em todos os shows e baladas da moda, contrate dois ou três seguranças, arrume amigos famosos (podem até ser ex-BBBs) e não esqueça de postar tudo no Instagram!

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O dilema do “temos ou não temos” é o que tememos


A cerveja e a vodca, que antes eram o foco da organização de uma festa de aniversário, são substituídas pelo refrigerante, pelo bolo e pelo brigadeiro. Assim como o rock e outros gêneros de música adulta, que saem de cena para dar lugar à persistente (e ultrapassada) Rainha dos Baixinhos e à endeusada (e não menos persistente) Galinha Pintadinha. Os finais de semana, flexíveis e dedicados ao lazer e ao descanso, de repente dão muito mais trabalho – afinal, os rebentos não estão na escola, mas sim em casa clamando por atenção exclusiva. Ficar na cama até tarde é praticamente impossível e acordar várias vezes durante a noite torna-se comum – resumindo: dormir passa a ser artigo de luxo.

Depois dessa descrição, fica difícil entender por que a maioria das pessoas deseja tanto ter filhos. Eu mesma não sei explicar a razão, provavelmente pela falta de conhecimento sobre este território. O que sei é que muito mais interessante priorizar uma relação sadia, ao invés de focar nos desejos individuais. Sim, todo casal precisa saber separar as peças e manter seu individualismo, para não criar uma relação de dependência com o outro. Sim, é praticamente impossível que todos os sonhos sejam comuns aos dois. Mas é factível estabelecer um equilíbrio entre os desejos do “nós” e do “eu” e construir sonhos comunitários; caso contrário, com um lado pesando mais, alguém acaba pressionado a fazer apenas as vontades do outro – e não é o único a sair perdendo com isso. Por mais clichê que possa parecer, quando ambos aprendem a ceder, é muito mais fácil chegar a um consenso.

Individualismo feminino à parte, já ouvi, de várias mulheres que passaram por isso, que ser mãe é a melhor experiência que alguém pode ter. É  o tal do amor incondicional, de doar um pedaço seu para dar continuidade à família (que, aliás, muitos psicólogos desconfiam existir). Uma amiga me disse que o sorriso de um filho é suficiente para rebater qualquer argumento contra a procriação. Quando a lembrei que, além de dar trabalho, uma criança gera gastos absurdos, ela me disse, metaforicamente, que um carro também incomoda e demanda dinheiro, mas tê-lo oferece benefícios ainda maiores. De outra amiga, ouvi que um filho faz a mulher se sentir mais completa, complementa o casamento e reforça a união do casal. Na minha inexperiente visão, é aí que mora um dos perigos. Na falta de coragem de encarar uma separação depois de ter um terceiro envolvido na história, o casamento pode até se arrastar por mais um tempo, mas no fundo as pessoas sabem que o barco já afundou. Por mais que se escondam atrás dos filhos para continuar a vida conjugal, apesar dos pesares. E alguns icebergs são capazes de causar danos muito maiores que os do Titanic, tornando uma grande perda de tempo qualquer tentativa de reparo, ainda mais usando uma criaturinha indefesa, que está ao léu no jogo.

Mais grave que colocar alguém no mundo com a finalidade de salvar um casamento é o impacto que as divergências sobre ter ou não filhos podem causar no relacionamento. Como algumas pessoas são irredutíveis nessa questão, quando não há consenso, a separação pode ser a melhor saída. E se engana quem pensa que a pressão para ingressar no mundo das chupetas e mamadeiras vem só das mulheres. Hoje em dia, é comum que o homem bata o pé por uma família de comercial de margarina – como se ela existisse longe do rótulo do produto. Por outro lado, há uma nova geração de mulheres priorizando a carreira e, consequentemente, adiando a maternidade (e correndo contra o relógio biológico) ou até mesmo desistindo dela. Certa vez, deparei-me com uma poesia cuja autora pareceu-me ferrenhamente contra esse movimento, ao recomendar que as mulheres não se deixassem “castrar”, para não se tornar animais somente de prazer. “Empregos fora do lar?”, dizia ela, “és superior àqueles que procuras imitar; tens o dom divino de ser mãe”. Apesar do belo discurso, divino ou não, tal dom não coloca pão na mesa de ninguém. Assim sendo, sortudas são aquelas que possuem condições de conciliar os papéis de esposa, mãe e profissional.

Apesar de não ter qualquer afinidade com a maternidade e não acreditar muito na possibilidade de, um dia, chegar a desenvolvê-la ou querê-la, não pretendo pregar que as mulheres não devem ter filhos, pois só assim é possível viver e ter liberdade. Menos ainda, confrontá-la com a máxima de que todo mundo tem que ter filhos, como se esse fosse o curso natural da vida. Não sou defensora de nenhum dos pontos de vista, apenas discordo da pressão social que exige que mulheres e homens plantem suas sementes por aí, para garantir as próximas gerações das famílias, mesmo contrariando seus mais íntimos desejos. Filhos são para sempre, representam um caminho sem volta. Portanto, como já foi dito por aí, é preciso fazer um ótimo trabalho para justificar colocá-los neste mundo.

Considerando os impactos financeiros e psicológicos (entre outros) que um bebê traz, além dos diversos ajustes que a rotina acaba demandando, é essencial respeitar o tempo de cada membro do casal. Se os filhos estão nos planos, tudo bem; contanto que ninguém queira pisar no acelerador e pressionar a outra parte a tê-los antes da própria vontade. Só não me venha com o velho papo de querer dar netos aos pais ou ter alguém que cuide de você na velhice – até porque é grande o risco de as crianças crescerem e empreenderem fuga do seio familiar –, pois não há motivos mais falsos que esses para seguir em frente. Pior que isso, só mesmo quem pretende gerar uma miniatura de si, para alcançar o que não foi capaz e consertar antigas frustrações. Ao invés de colocar no mundo alguém com uma responsabilidade inicial tão grande de agradar e ter sucesso, faz muito mais sentido pensar na conexão emocional criada ao ajudar um filho a crescer e, com isso, perceber que um novo universo pode ser descoberto.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Do desenrolar dos relacionamentos



“Não tenho culpa deste sol florido, desta chama alucinada, não tenho culpa do meu delírio (...) que turbulência na cabeça, que confusão, quantos cacos, que atropelos na minha língua!”
(Raduan Nassar)

Só de pensar em seu último relacionamento, você é tomada pela ideia de nunca mais se envolver com ninguém. Passar por todos os estágios novamente – da paixão à decepção – não é nada animador, mas surpresas podem acontecer e, quando percebe, está completamente envolvida em uma nova relação. É preciso aceitar que, como qualquer outro projeto, inícios de relacionamento costumam trazer consigo uma série de dúvidas. Será que vai dar certo? Devo estar preparada para o pior? Dessa vez, vai ou racha? Tal angústia é resultado do incerto, daquilo que não se pode prever. Depois de um tempo, tudo pode perder o encanto para aqueles que gostam apenas do novo e da ansiedade trazida por ele.

Conversei com uma amiga que está saindo com o mesmo cara há pouco mais de um mês e ela me disse que passa horas pensando se, uma hora dessas, ele não ficará entediado e fará o famoso N.D. (Número do Desaparecimento). Entendi bem o que quis dizer; afinal, quem nunca passou por isso? Muito empregado pelos homens de todas as idades, religiões e classes sociais, o N.D. consiste, basicamente, em sumir do mapa sem dar qualquer satisfação a quem possa interessar. Como evitá-lo? Se alguém souber, por favor me conte. Da mesma forma que é possível nos sentirmos cansadas de uma pessoa a ponto de cair fora, o excesso de açúcar pode estar na nossa fórmula, fazendo com que nós mesmas sejamos enjoativas ao paladar alheio.   

Mas esta incerteza expressa pela minha amiga não é a única envolvendo as mulheres em início de relacionamento. Outra, muito comum e normalmente fruto da pressão social, está relacionada ao status do mesmo. Certa vez, um autor escreveu que, para que as pessoas se entendam, é preciso que ponham ordem em suas ideias; palavra com palavra. Em tempos de Facebook, situações que não foram definidas com todas as letras podem se tornar um tormento, até que seja dado nome aos bois. É namoro, relacionamento enrolado ou o quê? A quem importa, afinal o conhecimento do status de uma ou outra pessoa? A ninguém, ou melhor, prioritariamente a quem está no relacionamento!

Por outro lado, há quem não se importe com estas denominações e, mais que isso, valorize a vida que leva ao lado de alguém, muito mais que a imagem que passa aos que estão ao redor. O melhor é que, ao optar pela autopreservação, não dá margem a eventuais fofocas e comentários mal intencionados. Entretanto, é preciso tomar cuidado quanto às reais intenções e demandas do outro, para não despender com ele mais consideração que recebe – e não acabar fazendo o papel de Seu Jorge com a Mina do Condomínio.

O lado bom de tantas dúvidas nessa fase inicial é o frio na barriga; aquele que mulheres que estão em longas relações reclamam de ter perdido. Provocado pela ansiedade, é resultado da rápida liberação de adrenalina pelo corpo e, por mais angustiante que possa parecer em alguns momentos, faz falta quando caímos na rotina e não mais sentimos o nostálgico gosto do início. Dá vontade de voltar no tempo, pois não somos mais o que éramos. Mas, se não somos o que éramos, por que a saudade?

E não é apenas o ponto de partida que traz seu lado positivo e negativo; o mesmo ocorre com os relacionamentos consolidados. Entre tantas outras coisas, a parte boa é que ser vista sem maquiagem deixa de ser um pesadelo, pensar tanto antes de falar torna-se desnecessário, as conversas fluem com mais naturalidade e dizer o que gosta sem (e o que não gosta) sem medo de desapontar passa a ser normal. Fica mais fácil acertar no presente em uma ocasião especial, cozinhar deixa de ser uma estratégia para impressionar e dá até para tentar uma receita nova – afinal, se der errado, não será o fim do mundo. Um bom relacionamento rima com conhecimento. E o que pode ser melhor que o tempo para proporcioná-lo? 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Da boneca à lua de mel


 
Geração vai, geração vem e a história é sempre a mesma: meninas brincando de casinha; meninos de carrinhos, bolas de futebol. Tal fato sempre me deixou intrigada; afinal de contas, personagens femininos e masculinos deveriam fazer parte da brincadeira de ambos os sexos, já que famílias são compostas, em geral, de mães, pais e filhos (não necessariamente, é claro), e os bonecos seguem essa composição. Acredito que o ato de brincar de casinha pode estar relacionado ao grande desejo, poucas vezes inconsciente, de grande parte das mulheres: casar. E não apenas isso: casar de véu e grinalda! Apesar de alguns homens até pensarem em protagonizar um casamento nos moldes tradicionais, é fato que isso é muito mais raro entre eles.

Durante vários meses, acompanhei a saga de uma amiga às voltas com os preparativos de seu pomposo casamento. Os relatos se referiam, desde a incessante busca pelo sapato ideal, até a equivocada previsão de gastos – que foram praticamente triplicados. Ao mesmo tempo, falava com animação sobre o apartamento adquirido na planta pelo casal. Narrado por ela, o processo de escolha dos acabamentos (azulejos do banheiro, porta de vidro da lavanderia, etc) parecia empolgante. Como ocorre com a maioria dos jovens recém casados, ainda mais em se tratando da vida nas grandes cidades (onde o preço do metro quadrado é absurdo), era um imóvel pequeno – apesar de aconchegante e ideal para os futuros moradores. Certo dia, perguntei se não seria melhor aplicar o valor da festa de casamento na compra de um lar mais espaçoso. Sem pensar duas vezes, minha amiga respondeu que não; que se tratava de um grande sonho, pelo qual valia a pena pagar caro. Na hora achei graça... "que coisa de maluco!"; depois me peguei analisando a importância do casamento na vida das pessoas, mesmo que nunca tenha feito parte dos meus pensamentos. 

O valor do casamento para a maioria das mulheres pode ter tudo a ver com a pressão cultural. Crescemos ouvindo perguntas do tipo "já arrumou namorado?" ou "vai casar quando?", além de advertências como "não escolha demais, pra não ficar pra titia". A propósito, esse é o medo de muitas, que acabam casando com qualquer um no desespero; afinal, é o que tem para hoje. Atualmente, é comum casar depois dos 30 - o que, no passado, era assustador e digno de pena; me faz lembrar do relato de Gilberto Freyre, sobre as mulheres da época colonial casando aos 12 anos de idade com homens de 40 e passando os próximos 20 anos de sua vida parindo descendentes brancos para os senhores de engenho. Ainda assim, há quem tenha pressa. Uma amiga, após alguns relacionamentos frustrados (poucos, na verdade, o que reforça seu temor em ficar sozinha, pois sequer teve disposição para tentar mais que duas ou três vezes), casou com um cara de quem reclamava desde o início do relacionamento, quando tudo deveria ser lindo e livre de problemas. Quando a questionei sobre a decisão, ela rapidamente me respondeu: "tenho medo de não arrumar nada melhor".

Na contramão disso tudo, há quem não se importe com essas convenções. Apesar de tentar entender as necessidades, prioridades e desejos alheios, não consigo me enxergar na pele da noiva sonhadora. Nunca fui do tipo que senta na cadeira do salão de beleza e folheia revistas de casamento. Sequer imaginei, algum dia, que tipo de vestido ou penteado gostaria de usar no "dia D". Não me agrada a ideia de programar, durante meses, uma festa na qual passarei boa parte do tempo sorridente, tirando fotos ao lado de padrinhos e demais convidados, ao invés de encher a cara e me divertir de verdade. De fato, nunca me encaixei no papel de mãe de boneca nenhuma.

Independentemente de planejar um megaevento, assinar papéis e jurar amor eterno na saúde e na doença, prosperar depende de respeito e consideração. Ao decidir compartilhar a vida com alguém, é preciso levar a sério o rito de passagem que ocorre nesse importante momento. A escolha deve ser consciente, pois implica em várias mudanças: as decisões passam a ser conjuntas, torna-se necessário ceder e receber uma contrapartida, além de dar satisfações e colocar em prática virtudes como a tolerância e a paciência. É imprescindível aceitar todas as versões do outro, inclusive as piores. E a recompensa vem com o tempo, quando não mais é preciso ultrapassar um muro para saber o que há por trás dele. E aí, um brinde ao amor, à intimidade e à cumplicidade. Com ou sem buquês, casadinhos, vestidos brancos ou chuvas de arroz que o antecedem.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A receptividade do carioca


Minha primeira passagem pelo Rio de Janeiro foi rápida, porém inesquecível. Em uma conexão de pouco mais de uma hora no Galeão, com destino a São Paulo, pude constatar a diferença entre os homens cariocas e os demais, espalhados pelo restante do Brasil. Falando assim, pode parecer que tive uma louca aventura com algum desses exemplares, mas não, nunca me envolvi com um carioca. Isso sequer é necessário para decifrá-los.

Ao desembarcar e perceber tantos olhares e cantadas (muitas das que já escutei nas construções enquanto caminhava), corri ao banheiro do aeroporto para ver se estava tudo ok. Fiquei confusa antes de me olhar no espelho: será que estão de sacanagem comigo – lembrei daquele episódio de Friends, no qual o Ross rabisca um bigodinho no rosto da Rachel e ela viaja sem saber que está “maquiada” – ou durante aquela cochilada básica no avião um gênio da lâmpada me transformou em miss? Fiquei decepcionada quando me vi! Não havia nada de diferente; eu era a mesma menina de cara cansada e cabelo amassado pela viagem de avião; de jeans, camiseta azul, jaqueta e bota básica. Mas, então, por que tantos olhares e assobios? Foi aí que passei a entender a típica receptividade carioca: eles não deixam passar uma! Minha percepção sobre o assunto me levou a crer que é preciso ser muito, mas muuuuuito feia, pra passar despercebida por um carioca. E quando Vinicius de Moraes pediu perdão às muito feias, dizendo que beleza é fundamental, fiquei me perguntando se os homens do Rio são tão exigentes assim.

Com o tempo, tive mais oportunidades de observar o jeitinho carioca de ser. Fiz outras viagens e conheci novos amigos, alguns deles cariocas. Cheguei a debater esse tema com um, que rebateu meus argumentos e tentou desmentir a fama de seus conterrâneos. Deixei claro que não estava fazendo uma crítica, mas sim um elogio. Isso porque cariocas são espontâneos em suas cantadas. Não costumam forçar a barra; se a primeira não deu moral, passam logo para a próxima, sem constrangimento – bem diferentes do imbecil-não-carioca que, minutos depois de pedir meu telefone, mandou uma foto de cueca pelo whatsapp, no estilo galã de novela mexicana.

Além de espontâneos, os cariocas têm sentimentos. Uma recente pesquisa surpreendeu muita gente, ao revelar que os homens cariocas não buscam apenas belas mulheres de corpo sarado. O que eles mais querem é carinho, de preferência acompanhado de fidelidade. Basta saber se eles estão dispostos a dar o mesmo em troca. Alguns estão tão dispostos, que sequer ligam para quem será o alvo do seu afeto – o que me faz recordar um “amigo” carioca que tentou investir em mim, na minha irmã e em uma grande amiga nossa ao mesmo tempo. O que será que ele faria, se nós resolvêssemos ir, as três juntas, ao Rio? Melhor nem pensar!

Certa vez, li um texto assinado por uma blogueira do Rio, que explicou o motivo pelo qual se envolvia apenas com homens de outros estados com a seguinte frase: “carioca é que nem bacon: muito gostoso, mas entope artéria, então é bom curtir com moderação”. Para ela, os homens cariocas são machistas, grosseiros e representam demais – fingem ser o que não são. Apesar de conhecer cariocas que exageram na hora de falar com as mulheres e que têm fama de brucutu, discordo. Generalizar é criar estereótipos que quase nunca fazem sentido; é dar brecha ao preconceito – e todo preconceito é burro. Tenho um amigo e colega de profissão que é prova disso. Carioca com muito orgulho (até finge que esqueceu ter nascido no interior de São Paulo, pelo fato de ter mudado para o Rio meses depois), é um gentleman em tempo integral. Não cansa de repetir que quem gosta de verdade de mulher sempre irá tratá-la bem; se age de maneira contrária, é porque aprecia apenas o processo de conquista. Entretanto, quando eu disse que “encaixaria” sua frase neste texto, não perdeu a oportunidade de fazer piada com o verbo que empreguei – típico de carioca! A cereja do bolo veio na sequência: “a mulher tem que estar pronta para o que der e vier, mas nós homens estamos prontos para quem vier e der”. Ok, meu caro... em poucos minutos de leitura, até nós já acreditamos que você nasceu no Rio.


Clichês à parte, o carioca tem um jeitinho especial, sim. Faz amizade com facilidade, está sempre satisfeito seja qual for a programação e dificilmente fica sozinho, o que não aconteceria se não tivesse suas qualidades. Parafraseando Vinicius mais uma vez: a mulher carioca tem um pouquinho que ninguém tem – e é impossível não perceber que o homem também! 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Quando um fantasma bate à porta


Relacionamentos sempre deixam marcas e, quando desfeitos, é impossível manter apenas as coisas boas – especialmente quando o fim se dá de forma turbulenta. O tempo de superação varia; o importante é ter humildade para conviver com ele e não tentar contrariar seu fluxo. Levantar após uma queda é algo que todo ser humano aprende, até mesmo pela sua condição altamente adaptável às mais diversas situações. Entretanto, surpresas podem acontecer quando as páginas pareciam estar definitivamente viradas.

Quem nunca passou pela dor do fim com litros de lágrimas derramadas e, depois de dar a volta por cima, se sentiu balançado por fantasmas do passado? Eles podem ser representados por sentimentos – uma desconfiança, uma palavra que soou estranho, uma traição ou até intuição. Mas o mais perturbador dos fantasmas pode, sim, ser alguém de carne e osso. Desde um ex que decide ressurgir das cinzas até aquela paixão platônica que resolve dar alguma esperança.

Não à toa, pessoas procuram se afastar do que lhes remete a lembranças ruins, como tentativa de autodefesa. A estratégia é ainda mais comum após rupturas nas quais alguém sofreu muito até aceitar que não tinha mais jeito. Por isso, amizades com ex não são recomendáveis – não há motivo para guardar rancor, mas bancar o “Best FriendForever” é hipocrisia. Cumprimentar e bater um papo amigável em um encontro casual é suficiente. Até porque, cá entre nós, alguém acredita em términos de comum acordo? Aquela velha história de que “ninguém terminou, a decisão foi mútua” é, no mínimo, duvidosa.

Depois do ponto final, inicia-se uma nova etapa. De um modo geral, mulheres deixam transparecer mais o sofrimento nesta fase. Choram, ouvem músicas deprimentes, devoram caixas de chocolates e enchem os ouvidos das amigas com suas lamúrias. Muitas vezes, forçam a barra irritantemente, por demonstrações de compaixão de pessoas próximas.

Um dia, a nuvem negra vai embora e é hora de tomar novos ares. Ir a bares até então desconhecidos, fazer novos amigos, buscar outras atividades de lazer. O que era apenas uma tentativa de sobrevivência, acaba revelando um doce recomeço. Depois de um tempo de reclusão, o coração parece ávido para bater mais forte por outro alguém, quando de repente... eis que surge a assombração!

Num primeiro momento, é difícil saber como agir. Recomenda-se colocar tudo na balança (o bom e o ruim do relacionamento falido) e analisar se compensa dar outra chance. Um grande erro é dar peso maior ao início da relação, quando tudo parecia perfeito e os problemas sequer haviam dado sinal. É a época em que as máscaras ainda não caíram, as atitudes mais grosseiras não foram tomadas, o respeito não se perdeu. Quando aquele que parecia ser a metadeda laranja ainda não virou suco. Leva-se em conta apenas o ator, cujo personagem interpretado seria compatível aos desejos e necessidades do outro – seria, pois não existe. Ignora-se o que veio depois: as brigas, ofensas e mentiras deslavadas. Será que vale a pena ver de novo?


Em certa ocasião, ouvi dizer que aquele que não morou nunca em seus próprios abismos, nem andou em promiscuidade com seus fantasmas, não será exposto às fraquezas, ao amor ou ao poema. Sim, é fundamental habitar nossos abismos e confrontar nossos fantasmas. Mas é também necessário compreender que a vida é feita de ciclos. Uma hora, é preciso parar de brigar com o passado e aceitar que o ciclo que levou ao abismo chegou ao fim. O que não deu certo uma vez, dificilmente funcionará algum dia. Pessoas não mudam; por mais que prometam se esforçar nesse sentido, sua essência permanecerá. Partindo dessa ideia – já que romances não raramente acabam por cobranças de mudança–, devemos aprender que lamentar uma dor passada no presente é criar outra dor. E sofrer novamente. As palavras de William Shakespeare fazem sentido, não?

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Sobre homens e meninos


Apesar de ser o primeiro item colocado na mesa na maioria das conversas sobre maturidade, a idade não está necessariamente ligada a essa circunstância. Nem mesmo a certidão de nascimento mais amarelada garante que seu dono tenha atingido esse estado de desenvolvimento comportamental e afetivo. Provas disso são os milhares de “garotões” na casa dos 40, que insistem em permanecer na barra da saia da mãe, por falta de coragem de assumir as responsabilidades da vida adulta. Sem falar naqueles que não conseguem levar a sério seus relacionamentos, por medo de se comprometer e um dia ter que dar um passo maior do que suas frágeis e cansadas perninhas aguentam. Por outro lado, caras jovens podem surpreender com atitudes atípicas para sua idade. Registros de nascimento à parte, alguns simples detalhes diferenciam homens de meninos.


Homens não precisam “maquiar” sua própria realidade; meninos adoram exageros

Garotinhos que usam roupas sérias demais, falam difícil e têm o iPhone como melhor companheiro são vistos constantemente por aí. Tentam parecer ocupados o tempo todo, como se isso fosse lhes render algum status. Na tentativa de passar a imagem de austeridade, mantêm o mesmo semblante fechado de quem se sente incomodado por usar uma cueca apertada demais. Na maior parte dos casos, não passam de meros ASPONES (Assessores de Porra Nenhuma) e, apesar de quase nada produzir, assumem ares de importância de alguém extremamente atarefado.

Há ainda os que sobrevivem de rolos e trambiques em geral, mas no Facebook são “diretores/gerentes na empresa Blá blá blá Company” ou qualquer outro nome americanizado que inventaram pra batizar seu negócio – cuja sede pode ser, inclusive, seu próprio quarto; aquele que virou moda chamar de “home office”. São os mesmos que, segundo as informações que disponibilizam em seus perfis nas redes sociais, falam inglês, espanhol, francês, italiano e mandarim.

Homens de verdade, por sua vez, não se preocupam com ostentação. Não mentem que estão sempre na “correria” ou que não têm “tempo para nada”, nem ficam repetindo discursos prontos como “meu trabalho é minha paixão e minha prioridade”. Eles não vestem a máscara; têm segurança suficiente para agradar sem precisar maquiar ou enaltecer tudo o que possuem.


Homens falam o que lhes incomoda; meninos choram se contrariados

Quando se está em uma relação, é preciso que haja comprometimento de ambos os lados. Isso inclui lealdade, sinceridade e honestidade. Se algo não vai bem, o homem de verdade abre o jogo com naturalidade, na tentativa de fazer as coisas melhorarem. Sabem pedir gentilmente um pouco mais de empenho do outro lado, para que ambos estejam satisfeitos.

Cometer atitudes que incomodam o outro e pisar na bola de vez em quando... isso é completamente normal. Anormal é varrer a poeira para baixo do tapete, fingindo que nada aconteceu até o problema virar uma bola de neve e se tornar insustentável. Pior, se ofender e se afastar de repente, como se a mulher tivesse bola de cristal e obrigação de adivinhar o que foi que aconteceu – atitude típica de meninão.

Meninões foram mimados por pais que faziam todas as suas vontades na infância, para não vê-los sapatear até ter o que desejassem. Ao invés de dialogar, esses pais tentavam distrair as crianças para não ser incomodados. Tal criação faz com que elas cresçam acreditando no poder de vencer a tudo e todos no cansaço, nem que seja à base da chantagem emocional – hábito esse que, inclusive, é transferido aos relacionamentos amorosos, na tentativa de submeter a parceira às suas escolhas. Apesar de algumas atitudes juvenis até parecerem engraçadinhas em alguns momentos, vale lembrar as palavras de Schopenhauer: não se perdoa em um homem o que se acha graça numa criança.

Em um de seus ensaios, Montaigne cita a frase de Aristóteles, de que havia uma nação onde as mulheres eram comuns a todos e, por isso, os filhos eram atribuídos aos pais pela semelhança. No entanto, pais e filhos costumam ter em comum muito mais que a aparência. “Que prodígio é esse que aquela gota de sêmen de que somos feitos traga em si as marcas não só da forma corporal mas dos pensamentos e inclinações de nossos pais?”, questiona o escritor francês. De fato, herdamos de nossos progenitores alguns padrões de comportamento que são cada vez mais reforçados pelo convívio. De alguns até tentamos fugir, o que nem sempre é possível.

Pais mimados criam meninões egoístas, pois para eles esse estilo de vida é natural. O mais surpreendente é que, por não saber fazer nada sozinhos, eles costumam depender da mulher para tudo; mesmo assim, mostram-se arbitrários, machistas e grosseiros – quase sempre reproduzindo o que cresceram vendo o pai fazer com a mãe.


Em “Idade Madura”, Carlos Drummond de Andrade fala de sinais que aos vinte anos não via. Infelizmente, há quem passe pela vida sem nunca conseguir enxergá-los. Alguns meninos tornam-se homens; outros sempre serão meninos, por mais bagagem que possam acumular ao longo de sua existência. Apesar da dificuldade para identificá-los logo de cara, uma coisa é certa e a convivência não deixa dúvidas: o menino sempre escorrega onde o homem caminha livre. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

5 MOTIVOS PARA AS MULHERES CULTIVAREM AMIZADES MASCULINAS



A velha máxima de que “amigo de mulher é cabeleireiro” nunca se aplicou às minhas relações pessoais. Discordo completamente do escritor Oscar Wilde, que disse que “entre um homem e uma mulher não é possível haver amizade”, apenas “paixão, hostilidade, veneração, amor, mas amizade, não". Desde muito jovem, sempre estive cercada de vários homens, fazendo os papéis de confidentes, conselheiros, parceiros de balada e até mesmo carregando minha mochila quando brigava com minha mãe e ameaçava fugir de casa com a roupa do corpo, o telefone celular e uma chapinha para cabelo.

Boa parte desses homens permanece em minha vida até hoje, mas novos surgiram. Já cometi o grave erro de me afastar dos meus melhores amigos devido às crises de ciúmes de um namorado inseguro e possessivo, mas atualmente tenho plena consciência de como foi absurda minha atitude (amigos verdadeiros nunca serão uma ameaça a um casal) e quão necessário é ter esses homens por perto.

Como não compartilho da opinião do poeta argentino Jorge Luis Borges (“a amizade entre homem e mulher, mesmo que inconscientemente, é sempre um pouco erótica”), faço uma ressalva: é adequado que a relação não tenha segundas intenções, para não correr o risco de desestabilizá-la. É claro que fica muito mais fácil evitar esse tipo de equívoco se não houver atração física. Nietzsche, inclusive, só acreditava na manutenção de uma amizade intersexual se houvesse uma pequena antipatia física. Intelectualismo à parte, seguem abaixo cinco motivos pelos quais as mulheres PRE-CI-SAM de amigos do sexo oposto:

Primeiro: não há competitividade nas amizades entre homens e mulheres. Enquanto são comuns os atritos entre amigas, por diversos motivos – os principais continuam sendo as disputas pela atenção do mesmo boy, seguidas de competições relacionadas à aparência e inveja –, com os homens o relacionamento é mais transparente. Os interesses são completamente diferentes. Desta forma, não há razão para falsidade, ainda mais com o intuito de sair na frente quando há algum tipo de concorrência. Um ponto a menos para o “eterno feminino” de Goethe que, apesar de ser o que atrai o sexo oposto, também revela particularidades não tão agradáveis das mulheres.

Segundo: eles podem ser ótimos conselheiros amorosos. Por compartilhar da visão masculina, raramente erram ao opinar sobre os dilemas apresentados pelas amigas. Eles conseguem se colocar no lugar do cara, explicando o que você não entende. Além disso, costumam ser honestos e não iludi-las. Se contar algo sobre um affair, não espere que ele diga que o cara está super a fim de você, apenas para deixá-la feliz e satisfeita. Se sentir que ele não está tão a fim, o amigo provavelmente jogará limpo, aconselhando-a a partir para outra, por mais doloroso que possa ser ouvir isso.

Terceiro: normalmente, homens andam em grupos, que podem ser compostos por gente interessante. Se você for solteira e estiver à procura, um amigo pode facilitar as coisas, apresentando um dos seus. Além disso, pode fazer o “meio de campo”, reforçando o quanto a amiga é bonita, divertida, inteligente, etc. Também pode informá-la com detalhes sobre a personalidade do rapaz e suas reais intenções. Em alguns casos, a receita é tão assertiva, que o amigo acaba promovido de cupido a padrinho de casamento. Pode ser mera coincidência, mas a maioria dos casais felizes que conheço foi apresentada por um amigo em comum.

Quarto: a sensação de estar protegida ao lado de um homem é inegável. Não sou grande admiradora da teoria da mulher sexo frágil, mas adoro ter alguém que possa me defender. E um amigo consegue fazer isso de forma magistral. Ele pode ser muito útil em uma viagem, por exemplo, quando a mulher encontra-se em terreno desconhecido. Além de afastar gente mal intencionada e fazer gentilezas – como carregar a mala e pedir a comida no restaurante –, o colega do sexo oposto pode ter outras utilidades, incluindo dirigir e traçar o roteiro do passeio. Vale lembrar que estudos sobre habilidade espacial revelaram que o senso de direção apurado é um dos efeitos colaterais dos altos níveis de testosterona; ou seja: os machos se localizam com muito mais facilidade que as fêmeas.

Quinto: a amizade com um homem permite que a mulher tenha um contato maior com o universo masculino, que é descontraído e descomplicado. Conversar com eles é diferente, pois sempre podem acrescentar algo de bom. Por outro lado, ao conversar com amigas mulheres, muitas vezes sinto como se estivesse olhando no espelho, reproduzindo minha própria voz e as mesmas angústias. Por meio de seus gostos e preferências, amigos podem apresentar um mundo novo. Além das opiniões diferenciadas, o papo com os homens tem mais uma vantagem: eles são diretos; não costumam ser tão dramáticos como as mulheres, que adoram fazer tempestade em copo d’água.

Resumindo: não basta querer o melhor para você e tentar ajudar; para isso, é preciso ser sincero e imparcial. Depois dos cinco itens, ainda preciso dizer que os homens estão muitos passos à frente das mulheres nesse quesito?



*Texto dedicado a cinco homens que fazem a diferença na minha vida – Alexandre Semmer, Joe Ulanowicz, Marcos Fiorese, Conrado Dall Igna e Daniel Hamud – e a mais um, que apesar de não ser exatamente meu amigo, tem me incentivado muito, ajudando a escrever todos os textos deste blog.