segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A base experiencial do sofrimento sertanejo



Meninos costumam crescer em meio a uma série de imposições da cultura machista. Uma das mais disseminadas é a de que homens não devem chorar, para não correr o risco de ter sua masculinidade afetada. Vejam só o paradoxo: o choro, que ajuda a aliviar o sofrimento e dispensa as palavras, deveria fazer todo o sentido para os homens – afinal, todas nós sabemos que falar sobre sentimentos não está no ranking de preferências deles, né? Pois bem, algumas lágrimas os poupariam do falatório que as mulheres, por outro lado, adoram.

Ironicamente, em uma de suas canções, Frejat afirma que “homem não chora”, admitindo, por outro lado, já ter “ajoelhado no chão” pela mulher perversa que o traiu, o pisoteou, transmitiu-lhe HPV e o deixou “com o coração na mão”. Mesmo não querendo dar o braço a torcer e sequer cogitando pedir perdão (ah, o orgulho!), o vocalista do Barão admite o “rosto vermelho e molhado” após tamanha decepção. Apesar de bela a letra, cá entre nós, ninguém retrata melhor o sofrimento masculino que os cantores sertanejos. Estes, sim, conhecem as palavras ideais para embalar nossos piores momentos de fossa e baixa autoestima. Homens, vocês não imaginam o quanto ajuda, nessas horas, trancafiar-se na solidão de um quarto escuro, abraçada a uma caixa de trufas de cereja, ao som de Chrystian & Ralf. “Sensível demais, eu sou um alguém que chora, por qualquer lembrança de nós dois”... é disso que eu estou falando.

Chitãozinho e Xororó também sabem o que é sofrer por amor – eu diria, inclusive, que se houvesse um pódio para prestigiar os sertanejos mais entendidos no assunto, provavelmente eles estariam lá, no mais elevado nível da plataforma. O clássico Evidências fala sobre a aflição de um homem – orgulhoso por natureza –, que diz já ter deixado de amar e não querer mais, quando na verdade ama, quer, mas tem medo de dar seu coração à amada, com receio de vê-lo despedaçado. E o drama não pára por aí: o pobre deixa evidente uma leve tendência suicida, ao dizer que não pode imaginar o que será de sua vida, se um dia perder sua gata. É, não se fazem mais românticos como antigamente; que dão valor até mesmo ao vestido velho da mulher amada e ao restinho do perfume dela, que ficou no frasco; que se entristecem ao encontrar um simples fio de cabelo comprido no paletó – cabelo este que já esteve grudado no suor compartilhado nas mais sórdidas noites.

Mas existe algum homem chifrado ou abandonado que não se sinta machucado? “Pense em mim, chore por mim, liga pra mim... não, não liga pra ele”, suplicaram tantas vezes Leandro e Leonardo. Sem falar nos convites para pegar o primeiro avião com destino à felicidade – atitude típica de quem não aprendeu a dizer adeus, mesmo sabendo que amores vêm e vão; são aves de verão. Chutes na bunda ou chifres à parte, estas não são as únicas razões do sofrimento masculino. Engana-se quem pensa que, por evitarem as famosas D.R.s, os meninos não ficam magoados com brigas e discussões. Zezé di Camargo e Luciano estão aí para comprovar: a ferro e fogo não dá! Com tanta indiferença, vemos a vida passar e esquecemos as coisas realmente importantes. Sim, porque todo mundo sabe que 90% das discussões de casal ocorrem por motivos banais, como a toalha molhada em cima da cama, a sogra megera ou a cerveja com os amigos. Tropeços e tropeços, pedras no caminho. E quando o clima esquenta, é normal que palavras desnecessárias se percam no ar. Nos casos mais extremos, se não há possibilidade de trégua, assino embaixo do que diz Zezé: não há por que remediar o fim; é bem melhor perder.

Para terminar, há os mais dramáticos, que se descabelam e se jogam no chão. Daniel é do tipo que escreve mil cartas, espera a chuva passar, mas não permite que o tempo apague as marcas do passado. O fato de não conseguir fascinar seu objeto de desejo eleva o nível de desespero do infeliz, a ponto de se jogar no chão da sala de estar. Sim, ser ignorado dói – muito mais que extrair um dente do siso sem anestesia. É preferível ser esbofeteado, agredido com palavrões, esculachado, esculhambado, zurzido. Quando o alvo de nossos mais puros sentimentos já não reage, dificilmente há solução. Conselho de amiga: se a pessoa prefere até mesmo cutucar o ouvido com a chave do carro ao invés de respondê-lo, desista. A dica vale não apenas para os chorões, mas também às choronas de plantão – afinal, todo e qualquer ser humano está sujeito a desilusões, independente do sexo. E, nessas horas, é permitido encarnar Edson e Hudson e virar um litro de cachaça por dia, para esquecer a dor do amor – só tome cuidado para não confundi-los com Bruno e Marrone e acabar dormindo na praça. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O tipo ideal para cada ocasião: coisa do passado


Árvores de Natal, renas puxando trenós e gorduchos vestidos de Papai Noel não me comovem. Não dou a mínima para datas comemorativas e confesso que só compro presentes no Dia das Mães e dos Pais para não sair mal na foto. Há algum tempo, deixei de me importar até mesmo com o meu aniversário e, depois de 27 primaveras promovendo festas malucas e sendo odiada pelos vizinhos incomodados com a bagunça, no ano passado não organizei nenhum evento para celebrá-lo. Entretanto, por mais que eu lute piamente contra isso, a passagem do ano, as datas comerciais e o Natal sempre me fazem refletir sobre coisas que vivi nos 365 dias anteriores. Dessa vez, de um modo diferente, pois meu 2013 foi marcado por muitas decisões e mudanças. Saí da zona de conforto, varri para longe o que não me servia mais e devolvi uma quantidade significativa de oferendas à Iemanjá. Causou-me surpresa reler textos antigos que escrevi: dei passos importantes e mudei minha visão sobre muita coisa. Por essa razão, inicio 2014 fazendo considerações a respeito de um deles, ou seja: pondo em xeque minhas próprias teorias.

Em 18 de outubro de 2012, procurei tipificar a diversidade de modelos masculinos, para verificar se há tipos de homens ideais para ocasiões específicas: o homem perfeito para namorar, o cara que não oferece nada além de diversão, o bom de cama, a companhia ideal para o boteco, entre outros. Hoje vejo que essa distinção não é válida, pois todos somos seres multifacetados, sujeitos a vários papeis ao longo de nossa existência – embora predomine um, podemos atuar em muitos. Contra minhas próprias convicções do passado, acredito hoje que o personagem que interpretamos (seu papel) é determinado pelo personagem com quem contracenamos. Trocando em miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamam de “planejado”; quando a pessoa que só serve para diversão se depara com aquela que é seu número, é possível que ela se transforme. Em um piscar de olhos, pode, sim, se tornar perfeita para coisa séria – e digo isso amparada em vários casos de amigos malandrinhos que viraram homens de uma mulher só, quando seus coraçõezinhos bandidos falaram mais alto.

Por outro lado, o contrário também pode acontecer. Certa vez, conheci uma garota que, após um longo período de bebedeiras diárias, sentiu-se exausta pelas madrugadas na balada, que lhe roubavam horas de sono e lhe estampavam frequentemente um semblante de urso panda. Foi então que decidiu seguir na direção oposta: só um namorado poderia salvar-lhe da vida boêmia. Em uma de suas aventuras frustradas nesse sentido, deixou-se levar por um tipo “perfeito para namorar”. Menino bonito, responsável, independente, bem sucedido profissionalmente e ambicioso na medida certa. Um desses caras que costumam chamar a atenção despretensiosamente na balada. Não demorou para que ele a chamasse para jantar, o que gerou grande ansiedade e expectativa. A noite foi agradável, mas não teve nada de especial. Ela tentou novamente e nada mudou. As investidas seguintes foram entediantes, a ponto de a sôfrega criatura torcer para levar um bolo sempre que combinavam algo. Após vários convites, inclusive para viagens românticas e coisas do gênero, ela decidiu esfriar gradualmente seu comportamento com o gentil rapaz, até deixa-lo definitivamente no vácuo e visivelmente chateado. Resultado: ela comprou um CD do Nelson Gonçalves, que até hoje lhe acompanha no carro, a caminho da balada: “boemia, a que me tens de regresso...”. Ainda pior que esse tipo de engano é o da estória do lobo em pele de cordeiro, que está calcada na realidade, não apenas na ficção bíblica, literária ou dos desenhos animados. Até mesmo as fêmeas mais inteligentes já caíram na conversa desses falsos cordeirinhos – lembrei-me de Drummond: suspeito que, do que me dizes, tudo é teatro. A verdade é que não existe tipo ideal para cada ocasião. O que existe, sim, é tipo ideal para a gente fugir – como aquele que só liga na madrugada, no desespero evidente de quem não conseguiu pegar ninguém e entrou em contato com o plano B: no caso, você.

Por mais que desejemos, algumas coisas são impossíveis de prever. O pândego que diverte a roda de amigos no boteco pode não passar de um grosseirão na intimidade, não habilitado para uma convivência harmoniosa; o sarado com cara de máquina de sexo pode ser brocha e o sedutor com pinta de Don Juan pode não passar de um gay mal resolvido em busca de alguém que lhe faça parecer macho. Uma dose de atenção é necessária, mas não garante sucesso absoluto. Usando as palavras de Guimarães Rosa, “não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma”.