segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O tipo ideal para cada ocasião: coisa do passado


Árvores de Natal, renas puxando trenós e gorduchos vestidos de Papai Noel não me comovem. Não dou a mínima para datas comemorativas e confesso que só compro presentes no Dia das Mães e dos Pais para não sair mal na foto. Há algum tempo, deixei de me importar até mesmo com o meu aniversário e, depois de 27 primaveras promovendo festas malucas e sendo odiada pelos vizinhos incomodados com a bagunça, no ano passado não organizei nenhum evento para celebrá-lo. Entretanto, por mais que eu lute piamente contra isso, a passagem do ano, as datas comerciais e o Natal sempre me fazem refletir sobre coisas que vivi nos 365 dias anteriores. Dessa vez, de um modo diferente, pois meu 2013 foi marcado por muitas decisões e mudanças. Saí da zona de conforto, varri para longe o que não me servia mais e devolvi uma quantidade significativa de oferendas à Iemanjá. Causou-me surpresa reler textos antigos que escrevi: dei passos importantes e mudei minha visão sobre muita coisa. Por essa razão, inicio 2014 fazendo considerações a respeito de um deles, ou seja: pondo em xeque minhas próprias teorias.

Em 18 de outubro de 2012, procurei tipificar a diversidade de modelos masculinos, para verificar se há tipos de homens ideais para ocasiões específicas: o homem perfeito para namorar, o cara que não oferece nada além de diversão, o bom de cama, a companhia ideal para o boteco, entre outros. Hoje vejo que essa distinção não é válida, pois todos somos seres multifacetados, sujeitos a vários papeis ao longo de nossa existência – embora predomine um, podemos atuar em muitos. Contra minhas próprias convicções do passado, acredito hoje que o personagem que interpretamos (seu papel) é determinado pelo personagem com quem contracenamos. Trocando em miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamam de “planejado”; quando a pessoa que só serve para diversão se depara com aquela que é seu número, é possível que ela se transforme. Em um piscar de olhos, pode, sim, se tornar perfeita para coisa séria – e digo isso amparada em vários casos de amigos malandrinhos que viraram homens de uma mulher só, quando seus coraçõezinhos bandidos falaram mais alto.

Por outro lado, o contrário também pode acontecer. Certa vez, conheci uma garota que, após um longo período de bebedeiras diárias, sentiu-se exausta pelas madrugadas na balada, que lhe roubavam horas de sono e lhe estampavam frequentemente um semblante de urso panda. Foi então que decidiu seguir na direção oposta: só um namorado poderia salvar-lhe da vida boêmia. Em uma de suas aventuras frustradas nesse sentido, deixou-se levar por um tipo “perfeito para namorar”. Menino bonito, responsável, independente, bem sucedido profissionalmente e ambicioso na medida certa. Um desses caras que costumam chamar a atenção despretensiosamente na balada. Não demorou para que ele a chamasse para jantar, o que gerou grande ansiedade e expectativa. A noite foi agradável, mas não teve nada de especial. Ela tentou novamente e nada mudou. As investidas seguintes foram entediantes, a ponto de a sôfrega criatura torcer para levar um bolo sempre que combinavam algo. Após vários convites, inclusive para viagens românticas e coisas do gênero, ela decidiu esfriar gradualmente seu comportamento com o gentil rapaz, até deixa-lo definitivamente no vácuo e visivelmente chateado. Resultado: ela comprou um CD do Nelson Gonçalves, que até hoje lhe acompanha no carro, a caminho da balada: “boemia, a que me tens de regresso...”. Ainda pior que esse tipo de engano é o da estória do lobo em pele de cordeiro, que está calcada na realidade, não apenas na ficção bíblica, literária ou dos desenhos animados. Até mesmo as fêmeas mais inteligentes já caíram na conversa desses falsos cordeirinhos – lembrei-me de Drummond: suspeito que, do que me dizes, tudo é teatro. A verdade é que não existe tipo ideal para cada ocasião. O que existe, sim, é tipo ideal para a gente fugir – como aquele que só liga na madrugada, no desespero evidente de quem não conseguiu pegar ninguém e entrou em contato com o plano B: no caso, você.

Por mais que desejemos, algumas coisas são impossíveis de prever. O pândego que diverte a roda de amigos no boteco pode não passar de um grosseirão na intimidade, não habilitado para uma convivência harmoniosa; o sarado com cara de máquina de sexo pode ser brocha e o sedutor com pinta de Don Juan pode não passar de um gay mal resolvido em busca de alguém que lhe faça parecer macho. Uma dose de atenção é necessária, mas não garante sucesso absoluto. Usando as palavras de Guimarães Rosa, “não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma”. 

Um comentário:

  1. Sabe uma palavrinha mágica que vc disse logo no início desse texto , Bruna ? ZONA DE CONFORTO . Hj em dia posso dizer que é a coisa mais perigosa que um ser humano pode cultivar.

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