Árvores de Natal, renas puxando
trenós e gorduchos vestidos de Papai Noel não me comovem. Não dou a mínima para
datas comemorativas e confesso que só compro presentes no Dia das Mães e dos
Pais para não sair mal na foto. Há algum tempo, deixei de me importar até mesmo
com o meu aniversário e, depois de 27 primaveras promovendo festas malucas e
sendo odiada pelos vizinhos incomodados com a bagunça, no ano passado não
organizei nenhum evento para celebrá-lo. Entretanto, por mais que eu lute
piamente contra isso, a passagem do ano, as datas comerciais e o Natal sempre
me fazem refletir sobre coisas que vivi nos 365 dias anteriores. Dessa vez, de
um modo diferente, pois meu 2013 foi marcado por muitas decisões e mudanças.
Saí da zona de conforto, varri para longe o que não me servia mais e devolvi
uma quantidade significativa de oferendas à Iemanjá. Causou-me surpresa reler
textos antigos que escrevi: dei passos importantes e mudei minha visão sobre
muita coisa. Por essa razão, inicio 2014 fazendo considerações a respeito de um
deles, ou seja: pondo em xeque minhas próprias teorias.
Em 18 de outubro de
2012, procurei tipificar a diversidade de modelos masculinos, para verificar se
há tipos de homens ideais para ocasiões específicas: o homem perfeito para
namorar, o cara que não oferece nada além de diversão, o bom de cama, a
companhia ideal para o boteco, entre outros. Hoje vejo que essa distinção não é
válida, pois todos somos seres multifacetados, sujeitos a vários papeis ao
longo de nossa existência – embora predomine um, podemos atuar em muitos. Contra
minhas próprias convicções do passado, acredito hoje que o personagem que interpretamos
(seu papel) é determinado pelo personagem com quem contracenamos. Trocando em
miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamam de “planejado”; quando a
pessoa que só serve para diversão se depara com aquela que é seu número, é possível
que ela se transforme. Em um piscar de olhos, pode, sim, se tornar perfeita
para coisa séria – e digo isso amparada em vários casos de amigos malandrinhos
que viraram homens de uma mulher só, quando seus coraçõezinhos bandidos falaram
mais alto.
Por outro lado, o
contrário também pode acontecer. Certa vez, conheci uma garota que, após um
longo período de bebedeiras diárias, sentiu-se exausta pelas madrugadas na
balada, que lhe roubavam horas de sono e lhe estampavam frequentemente um
semblante de urso panda. Foi então que decidiu seguir na direção oposta: só um
namorado poderia salvar-lhe da vida boêmia. Em uma de suas aventuras frustradas
nesse sentido, deixou-se levar por um tipo “perfeito para namorar”. Menino
bonito, responsável, independente, bem sucedido profissionalmente e ambicioso
na medida certa. Um desses caras que costumam chamar a atenção despretensiosamente
na balada. Não demorou para que ele a chamasse para jantar, o que gerou grande
ansiedade e expectativa. A noite foi agradável, mas não teve nada de especial.
Ela tentou novamente e nada mudou. As investidas seguintes foram entediantes, a
ponto de a sôfrega criatura torcer para levar um bolo sempre que combinavam
algo. Após vários convites, inclusive para viagens românticas e coisas do
gênero, ela decidiu esfriar gradualmente seu comportamento com o gentil rapaz,
até deixa-lo definitivamente no vácuo e visivelmente chateado. Resultado: ela
comprou um CD do Nelson Gonçalves, que até hoje lhe acompanha no carro, a
caminho da balada: “boemia, a que me tens de regresso...”. Ainda pior que esse
tipo de engano é o da estória do lobo em pele de cordeiro, que está calcada na
realidade, não apenas na ficção bíblica, literária ou dos desenhos animados. Até
mesmo as fêmeas mais inteligentes já caíram na conversa desses falsos
cordeirinhos – lembrei-me de Drummond: suspeito
que, do que me dizes, tudo é teatro. A verdade é que não existe tipo ideal
para cada ocasião. O que existe, sim, é tipo ideal para a gente fugir – como
aquele que só liga na madrugada, no desespero evidente de quem não conseguiu
pegar ninguém e entrou em contato com o plano B: no caso, você.
Por mais que desejemos,
algumas coisas são impossíveis de prever. O pândego que diverte a roda de
amigos no boteco pode não passar de um grosseirão na intimidade, não habilitado
para uma convivência harmoniosa; o sarado com cara de máquina de sexo pode ser
brocha e o sedutor com pinta de Don Juan pode não passar de um gay mal
resolvido em busca de alguém que lhe faça parecer macho. Uma dose de atenção é
necessária, mas não garante sucesso absoluto. Usando as palavras de Guimarães
Rosa, “não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma”.

Sabe uma palavrinha mágica que vc disse logo no início desse texto , Bruna ? ZONA DE CONFORTO . Hj em dia posso dizer que é a coisa mais perigosa que um ser humano pode cultivar.
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