“Ausência total ou parcial de
laços afetivos”. Essa é a definição do dicionário Aurélio para a carência
afetiva, problema que costuma trazer consigo uma grande dose de negação. Afinal
de contas, ninguém quer ter seu nome associado a ele, sob pena de parecer fraco,
dependente e emocionalmente instável. Juntas, essas duas palavrinhas são
capazes de causar uma grande confusão mental, nos levando a acreditar em
sentimentos que não existem e a esperar que as pessoas erradas possam suprir
nossas necessidades – na prática, aquele moreno alto, bonito e sensual pode não
ser a solução dos seus problemas.
A carência é evidente quando alguém
busca desesperadamente um relacionamento, com qualquer criatura que esteja
disposta a embarcar no mesmo projeto. E é aí que entra a teoria do “Tipo ideal para cada ocasião”, já abordada neste blog. Na obsessão por arrumar alguém
para chamar de seu, é grande o risco de se engatar um relacionamento sério com,
por exemplo, o cara perfeito para a pegação de fim de noite e nada mais.
Uma vez, vendo Grey’s Anatomy,
ouvi algo que não saiu mais da minha cabeça. Naquele momento, identifiquei-me tanto
com tais palavras, que me vi obrigada a dar um basta em uma relação que já não
tinha mais nada a ver comigo: “dignidade é saber a hora certa de se afastar; é
não se contentar com menos do que se merece”. Essa afirmação deixa claro o
conflito existente entre a carência e a dignidade, uma vez que o contentamento
com pessoas e situações que estão abaixo do que merecemos torna-se comum.
Uma mulher carente,
impossibilitada de responder pelos seus atos e com seus próprios recursos às
suas demandas, corre grande risco de cair em armadilhas. Isso porque, quando
estamos vulneráveis, costumamos deixar que sujeitos apáticos e sem grandes
qualidades se aproximem. Não raramente, empurramos com a barriga por tanto tempo
que acabamos nos envolvendo, apesar da falta de afinidades.
As qualidades que fazem uma
mulher se sentir atraída variam muito, mas é fato que todas sabem o que basicamente
procuram e o que desperta sua admiração. Algumas buscam beleza – o que pode torná-las
reféns de relações superficiais. Outras, por sua vez, priorizam uma gorda conta
bancária. São poucas, mas ainda há mulheres que dão valor à inteligência. Faço
parte do time que brocha ao receber um sms de “boa viajem” e já cheguei a ter
pesadelos depois de deitar a cabeça no travesseiro com remorso, ao constatar que
estava saindo com alguém que não sabia a diferença de “mas” e “mais”.
Em um mundo de
escassez de homens interessantes e completos (ou quase), a ala feminina acaba
se obrigando a dar uma chance aos “cafés com leite”. Mas é essencial saber
separar as coisas e não ir muito longe com quem não tem o que acrescentar. A
base de um relacionamento deveria ser o que o outro pode fazer para nos ajudar
a ser cada vez melhores; a não parar no tempo, superar antigos preconceitos,
enxergar a vida sob uma nova perspectiva e correr atrás de antigos sonhos. Um
deveria ser a pedra bruta do outro; cada um trabalhando na sua pedra para refiná-la.
Ao invés de nos levar à tão
sonhada felicidade, a carência gera a ilusão, que ofusca a razão e não permite
que enxerguemos a realidade. Desta forma, nos impede de sonhar com dias
melhores. Iludir-se é enganar-se; é trocar o real por uma ideia falsa. Mas, ao
tentar evitar esses erros de percurso, ter consciência dos fantasmas criados
pela ilusão – pegas mal sucedidos, amores de mentira e sexo abaixo do satisfatório
– e buscar corrigi-los, abrimos a janela para os sonhos. Sintetizando nas
palavras de Fernando Pessoa: "saber não ter ilusões é absolutamente
necessário para se poder ter sonhos".

Perfeito o texto amiga ...
ResponderExcluirMuito bom o texto .... lição para várias mulheres .
ResponderExcluirExcellent!
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