sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Sobre homens e meninos


Apesar de ser o primeiro item colocado na mesa na maioria das conversas sobre maturidade, a idade não está necessariamente ligada a essa circunstância. Nem mesmo a certidão de nascimento mais amarelada garante que seu dono tenha atingido esse estado de desenvolvimento comportamental e afetivo. Provas disso são os milhares de “garotões” na casa dos 40, que insistem em permanecer na barra da saia da mãe, por falta de coragem de assumir as responsabilidades da vida adulta. Sem falar naqueles que não conseguem levar a sério seus relacionamentos, por medo de se comprometer e um dia ter que dar um passo maior do que suas frágeis e cansadas perninhas aguentam. Por outro lado, caras jovens podem surpreender com atitudes atípicas para sua idade. Registros de nascimento à parte, alguns simples detalhes diferenciam homens de meninos.


Homens não precisam “maquiar” sua própria realidade; meninos adoram exageros

Garotinhos que usam roupas sérias demais, falam difícil e têm o iPhone como melhor companheiro são vistos constantemente por aí. Tentam parecer ocupados o tempo todo, como se isso fosse lhes render algum status. Na tentativa de passar a imagem de austeridade, mantêm o mesmo semblante fechado de quem se sente incomodado por usar uma cueca apertada demais. Na maior parte dos casos, não passam de meros ASPONES (Assessores de Porra Nenhuma) e, apesar de quase nada produzir, assumem ares de importância de alguém extremamente atarefado.

Há ainda os que sobrevivem de rolos e trambiques em geral, mas no Facebook são “diretores/gerentes na empresa Blá blá blá Company” ou qualquer outro nome americanizado que inventaram pra batizar seu negócio – cuja sede pode ser, inclusive, seu próprio quarto; aquele que virou moda chamar de “home office”. São os mesmos que, segundo as informações que disponibilizam em seus perfis nas redes sociais, falam inglês, espanhol, francês, italiano e mandarim.

Homens de verdade, por sua vez, não se preocupam com ostentação. Não mentem que estão sempre na “correria” ou que não têm “tempo para nada”, nem ficam repetindo discursos prontos como “meu trabalho é minha paixão e minha prioridade”. Eles não vestem a máscara; têm segurança suficiente para agradar sem precisar maquiar ou enaltecer tudo o que possuem.


Homens falam o que lhes incomoda; meninos choram se contrariados

Quando se está em uma relação, é preciso que haja comprometimento de ambos os lados. Isso inclui lealdade, sinceridade e honestidade. Se algo não vai bem, o homem de verdade abre o jogo com naturalidade, na tentativa de fazer as coisas melhorarem. Sabem pedir gentilmente um pouco mais de empenho do outro lado, para que ambos estejam satisfeitos.

Cometer atitudes que incomodam o outro e pisar na bola de vez em quando... isso é completamente normal. Anormal é varrer a poeira para baixo do tapete, fingindo que nada aconteceu até o problema virar uma bola de neve e se tornar insustentável. Pior, se ofender e se afastar de repente, como se a mulher tivesse bola de cristal e obrigação de adivinhar o que foi que aconteceu – atitude típica de meninão.

Meninões foram mimados por pais que faziam todas as suas vontades na infância, para não vê-los sapatear até ter o que desejassem. Ao invés de dialogar, esses pais tentavam distrair as crianças para não ser incomodados. Tal criação faz com que elas cresçam acreditando no poder de vencer a tudo e todos no cansaço, nem que seja à base da chantagem emocional – hábito esse que, inclusive, é transferido aos relacionamentos amorosos, na tentativa de submeter a parceira às suas escolhas. Apesar de algumas atitudes juvenis até parecerem engraçadinhas em alguns momentos, vale lembrar as palavras de Schopenhauer: não se perdoa em um homem o que se acha graça numa criança.

Em um de seus ensaios, Montaigne cita a frase de Aristóteles, de que havia uma nação onde as mulheres eram comuns a todos e, por isso, os filhos eram atribuídos aos pais pela semelhança. No entanto, pais e filhos costumam ter em comum muito mais que a aparência. “Que prodígio é esse que aquela gota de sêmen de que somos feitos traga em si as marcas não só da forma corporal mas dos pensamentos e inclinações de nossos pais?”, questiona o escritor francês. De fato, herdamos de nossos progenitores alguns padrões de comportamento que são cada vez mais reforçados pelo convívio. De alguns até tentamos fugir, o que nem sempre é possível.

Pais mimados criam meninões egoístas, pois para eles esse estilo de vida é natural. O mais surpreendente é que, por não saber fazer nada sozinhos, eles costumam depender da mulher para tudo; mesmo assim, mostram-se arbitrários, machistas e grosseiros – quase sempre reproduzindo o que cresceram vendo o pai fazer com a mãe.


Em “Idade Madura”, Carlos Drummond de Andrade fala de sinais que aos vinte anos não via. Infelizmente, há quem passe pela vida sem nunca conseguir enxergá-los. Alguns meninos tornam-se homens; outros sempre serão meninos, por mais bagagem que possam acumular ao longo de sua existência. Apesar da dificuldade para identificá-los logo de cara, uma coisa é certa e a convivência não deixa dúvidas: o menino sempre escorrega onde o homem caminha livre. 

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