Relacionamentos sempre deixam
marcas e, quando desfeitos, é impossível manter apenas as coisas boas – especialmente
quando o fim se dá de forma turbulenta. O tempo de superação varia; o
importante é ter humildade para conviver com ele e não tentar contrariar seu
fluxo. Levantar após uma queda é algo que todo ser humano aprende, até mesmo
pela sua condição altamente adaptável às mais diversas situações. Entretanto,
surpresas podem acontecer quando as páginas pareciam estar definitivamente
viradas.
Quem nunca passou pela dor do fim
com litros de lágrimas derramadas e, depois de dar a volta por cima, se sentiu balançado
por fantasmas do passado? Eles podem ser representados por sentimentos – uma desconfiança,
uma palavra que soou estranho, uma traição ou até intuição. Mas o mais
perturbador dos fantasmas pode, sim, ser alguém de carne e osso. Desde um ex
que decide ressurgir das cinzas até aquela paixão platônica que resolve dar
alguma esperança.
Não à toa, pessoas procuram se
afastar do que lhes remete a lembranças ruins, como tentativa de autodefesa. A
estratégia é ainda mais comum após rupturas nas quais alguém sofreu muito até
aceitar que não tinha mais jeito. Por isso, amizades com ex não são
recomendáveis – não há motivo para guardar rancor, mas bancar o “Best
FriendForever” é hipocrisia. Cumprimentar e bater um papo amigável em um
encontro casual é suficiente. Até porque, cá entre nós, alguém acredita em
términos de comum acordo? Aquela velha história de que “ninguém terminou, a
decisão foi mútua” é, no mínimo, duvidosa.
Depois do ponto final, inicia-se
uma nova etapa. De um modo geral, mulheres deixam transparecer mais o
sofrimento nesta fase. Choram, ouvem músicas deprimentes, devoram caixas de
chocolates e enchem os ouvidos das amigas com suas lamúrias. Muitas vezes,
forçam a barra irritantemente, por demonstrações de compaixão de pessoas
próximas.
Um dia, a nuvem negra vai embora
e é hora de tomar novos ares. Ir a bares até então desconhecidos, fazer novos amigos,
buscar outras atividades de lazer. O que era apenas uma tentativa de
sobrevivência, acaba revelando um doce recomeço. Depois de um tempo de
reclusão, o coração parece ávido para bater mais forte por outro alguém, quando
de repente... eis que surge a assombração!
Num primeiro momento, é difícil
saber como agir. Recomenda-se colocar tudo na balança (o bom e o ruim do
relacionamento falido) e analisar se compensa dar outra chance. Um grande erro é
dar peso maior ao início da relação, quando tudo parecia perfeito e os problemas
sequer haviam dado sinal. É a época em que as máscaras ainda não caíram, as
atitudes mais grosseiras não foram tomadas, o respeito não se perdeu. Quando
aquele que parecia ser a metadeda laranja ainda não virou suco. Leva-se em
conta apenas o ator, cujo personagem interpretado seria compatível aos desejos
e necessidades do outro – seria, pois não existe. Ignora-se o que veio depois: as
brigas, ofensas e mentiras deslavadas. Será que vale a pena ver de novo?
Em certa ocasião, ouvi dizer que
aquele que não morou nunca em seus próprios abismos, nem andou em promiscuidade
com seus fantasmas, não será exposto às fraquezas, ao amor ou ao poema. Sim, é fundamental
habitar nossos abismos e confrontar nossos fantasmas. Mas é também necessário
compreender que a vida é feita de ciclos. Uma hora, é preciso parar de brigar
com o passado e aceitar que o ciclo que levou ao abismo chegou ao fim. O que
não deu certo uma vez, dificilmente funcionará algum dia. Pessoas não mudam;
por mais que prometam se esforçar nesse sentido, sua essência permanecerá. Partindo
dessa ideia – já que romances não raramente acabam por cobranças de mudança–, devemos aprender que lamentar uma dor passada no presente é
criar outra dor. E sofrer novamente. As palavras de William Shakespeare fazem
sentido, não?

Não se aposta duas vezes no mesmo cavalo manco ;)
ResponderExcluirAntigos amores, velhos problemas.
ResponderExcluirParabéns, você escreve muito bem!
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