quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Sofrimento: a locomotiva da autossabotagem nos relacionamentos


Dizem que a incapacidade de aceitar a perda é uma forma de insanidade. Faz sentido, uma vez que a simples possibilidade de perder o objeto do nosso afeto pode virar ao avesso nossa vida. O medo pode deixar a imaginação perigosamente fértil e até gerar crises de autoconfiança. De repente, passamos a agir contra nossos princípios e, não raramente, rodamos a baiana sem motivo. Quem luta constantemente contra possíveis vínculos emocionais pode fazer coisas absurdas, mesmo que inconscientemente, numa compulsiva tentativa de autossabotagem.

A comédia romântica ‘Como perder um homem em dez dias’ traz um enredo semelhante ao que foi descrito acima. Nela, a personagem de Kate Hudson faz de tudo para atormentar o namorado e forçá-lo a terminar com ela – incluindo encher o apartamento dele de samambaias medonhas e “presenteá-lo” com um cachorro que vive fazendo xixi em sua mesa de sinuca. No filme, a intenção da protagonista é usar a experiência como subsídio para escrever um artigo sobre o assunto. Na vida real, nos sabotamos para nos poupar de um eventual sofrimento. Com medo de perder, agimos loucamente e afastamos as pessoas, acreditando que tudo tem prazo de validade e que não vale a pena passar pela dor do fim.

Relacionamentos mal sucedidos costumam deixar feridas que, nem sempre, conseguimos curar. Com as experiências ruins, descobrimos que gostar dói. E pensar na hipótese de recomeçar pode ser pavoroso. Na prática, não é nada fácil passar novamente por todo aquele ciclo de se apaixonar, ser feliz, entrar em crise, terminar e passar dias secando as lágrimas e ouvindo “Você não me ensinou a te esquecer” do Caetano.

Assim, trilhamos novos caminhos, fugindo de hipérboles de sentimentos, enquanto as lembranças negativas dão espaço a uma angústia permanente. Nessa incessante busca pela temperança perdida, mal percebemos que repetimos padrões de comportamento capazes de destruir nossas próprias vidas. Somos vítimas de nós mesmos.

Por outro lado, já dizia Vinicius de Moraes: “amor só é bom se doer”.  Partindo dessa premissa, é preciso aceitar o sofrimento, pois a dor é parte inevitável da vida. Vivê-la em sua totalidade inclui as duas faces da moeda. Masoquismo à parte, ter prazer sem ao menos uma pitadinha de dor não faz sentido. Quem se entrega a sentimentos mais intensos precisa conhecer as consequências disso e entender que, ou se leva o combo, ou não se leva nada.

É natural o bloqueio criado pela mágoa, que dificulta qualquer reflexão sobre os erros do passado. No entanto, ao passá-los a limpo, podemos construir estórias melhores. Ao longo de nossa existência, levamos um milhão de tombos. O número pouco importa, se houver resiliência. Levantar sempre, sem perder a elegância e a alegria de viver, é algo que todos precisamos aprender. Só assim é possível, depois de tantas paixões dilacerantes, finalmente viver um amor saudável. 

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