quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A receptividade do carioca


Minha primeira passagem pelo Rio de Janeiro foi rápida, porém inesquecível. Em uma conexão de pouco mais de uma hora no Galeão, com destino a São Paulo, pude constatar a diferença entre os homens cariocas e os demais, espalhados pelo restante do Brasil. Falando assim, pode parecer que tive uma louca aventura com algum desses exemplares, mas não, nunca me envolvi com um carioca. Isso sequer é necessário para decifrá-los.

Ao desembarcar e perceber tantos olhares e cantadas (muitas das que já escutei nas construções enquanto caminhava), corri ao banheiro do aeroporto para ver se estava tudo ok. Fiquei confusa antes de me olhar no espelho: será que estão de sacanagem comigo – lembrei daquele episódio de Friends, no qual o Ross rabisca um bigodinho no rosto da Rachel e ela viaja sem saber que está “maquiada” – ou durante aquela cochilada básica no avião um gênio da lâmpada me transformou em miss? Fiquei decepcionada quando me vi! Não havia nada de diferente; eu era a mesma menina de cara cansada e cabelo amassado pela viagem de avião; de jeans, camiseta azul, jaqueta e bota básica. Mas, então, por que tantos olhares e assobios? Foi aí que passei a entender a típica receptividade carioca: eles não deixam passar uma! Minha percepção sobre o assunto me levou a crer que é preciso ser muito, mas muuuuuito feia, pra passar despercebida por um carioca. E quando Vinicius de Moraes pediu perdão às muito feias, dizendo que beleza é fundamental, fiquei me perguntando se os homens do Rio são tão exigentes assim.

Com o tempo, tive mais oportunidades de observar o jeitinho carioca de ser. Fiz outras viagens e conheci novos amigos, alguns deles cariocas. Cheguei a debater esse tema com um, que rebateu meus argumentos e tentou desmentir a fama de seus conterrâneos. Deixei claro que não estava fazendo uma crítica, mas sim um elogio. Isso porque cariocas são espontâneos em suas cantadas. Não costumam forçar a barra; se a primeira não deu moral, passam logo para a próxima, sem constrangimento – bem diferentes do imbecil-não-carioca que, minutos depois de pedir meu telefone, mandou uma foto de cueca pelo whatsapp, no estilo galã de novela mexicana.

Além de espontâneos, os cariocas têm sentimentos. Uma recente pesquisa surpreendeu muita gente, ao revelar que os homens cariocas não buscam apenas belas mulheres de corpo sarado. O que eles mais querem é carinho, de preferência acompanhado de fidelidade. Basta saber se eles estão dispostos a dar o mesmo em troca. Alguns estão tão dispostos, que sequer ligam para quem será o alvo do seu afeto – o que me faz recordar um “amigo” carioca que tentou investir em mim, na minha irmã e em uma grande amiga nossa ao mesmo tempo. O que será que ele faria, se nós resolvêssemos ir, as três juntas, ao Rio? Melhor nem pensar!

Certa vez, li um texto assinado por uma blogueira do Rio, que explicou o motivo pelo qual se envolvia apenas com homens de outros estados com a seguinte frase: “carioca é que nem bacon: muito gostoso, mas entope artéria, então é bom curtir com moderação”. Para ela, os homens cariocas são machistas, grosseiros e representam demais – fingem ser o que não são. Apesar de conhecer cariocas que exageram na hora de falar com as mulheres e que têm fama de brucutu, discordo. Generalizar é criar estereótipos que quase nunca fazem sentido; é dar brecha ao preconceito – e todo preconceito é burro. Tenho um amigo e colega de profissão que é prova disso. Carioca com muito orgulho (até finge que esqueceu ter nascido no interior de São Paulo, pelo fato de ter mudado para o Rio meses depois), é um gentleman em tempo integral. Não cansa de repetir que quem gosta de verdade de mulher sempre irá tratá-la bem; se age de maneira contrária, é porque aprecia apenas o processo de conquista. Entretanto, quando eu disse que “encaixaria” sua frase neste texto, não perdeu a oportunidade de fazer piada com o verbo que empreguei – típico de carioca! A cereja do bolo veio na sequência: “a mulher tem que estar pronta para o que der e vier, mas nós homens estamos prontos para quem vier e der”. Ok, meu caro... em poucos minutos de leitura, até nós já acreditamos que você nasceu no Rio.


Clichês à parte, o carioca tem um jeitinho especial, sim. Faz amizade com facilidade, está sempre satisfeito seja qual for a programação e dificilmente fica sozinho, o que não aconteceria se não tivesse suas qualidades. Parafraseando Vinicius mais uma vez: a mulher carioca tem um pouquinho que ninguém tem – e é impossível não perceber que o homem também! 

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