A cerveja e a
vodca, que antes eram o foco da organização de uma festa de aniversário, são
substituídas pelo refrigerante, pelo bolo e pelo brigadeiro. Assim como o rock
e outros gêneros de música adulta, que saem de cena para dar lugar à
persistente (e ultrapassada) Rainha dos Baixinhos e à endeusada (e não menos
persistente) Galinha Pintadinha. Os finais de semana, flexíveis e dedicados ao
lazer e ao descanso, de repente dão muito mais trabalho – afinal, os rebentos
não estão na escola, mas sim em casa clamando por atenção exclusiva. Ficar na
cama até tarde é praticamente impossível e acordar várias vezes durante a noite
torna-se comum – resumindo: dormir passa a ser artigo de luxo.
Depois dessa
descrição, fica difícil entender por que a maioria das pessoas deseja tanto ter
filhos. Eu mesma não sei explicar a razão, provavelmente pela falta de
conhecimento sobre este território. O que sei é que muito mais interessante
priorizar uma relação sadia, ao invés de focar nos desejos individuais. Sim,
todo casal precisa saber separar as peças e manter seu individualismo, para não
criar uma relação de dependência com o outro. Sim, é praticamente impossível
que todos os sonhos sejam comuns aos dois. Mas é factível estabelecer um
equilíbrio entre os desejos do “nós” e do “eu” e construir sonhos comunitários;
caso contrário, com um lado pesando mais, alguém acaba pressionado a fazer
apenas as vontades do outro – e não é o único a sair perdendo com isso. Por
mais clichê que possa parecer, quando ambos aprendem a ceder, é muito mais
fácil chegar a um consenso.
Individualismo
feminino à parte, já ouvi, de várias mulheres que passaram por isso, que ser
mãe é a melhor experiência que alguém pode ter. É o tal do amor incondicional, de doar um
pedaço seu para dar continuidade à família (que, aliás, muitos psicólogos
desconfiam existir). Uma amiga me disse que o sorriso de um filho é suficiente
para rebater qualquer argumento contra a procriação. Quando a lembrei que, além
de dar trabalho, uma criança gera gastos absurdos, ela me disse, metaforicamente, que um
carro também incomoda e demanda dinheiro, mas tê-lo oferece benefícios ainda
maiores. De outra amiga, ouvi que um filho faz a mulher se sentir mais
completa, complementa o casamento e reforça a união do casal. Na minha
inexperiente visão, é aí que mora um dos perigos. Na falta de coragem de
encarar uma separação depois de ter um terceiro envolvido na história, o
casamento pode até se arrastar por mais um tempo, mas no fundo as pessoas sabem
que o barco já afundou. Por mais que se escondam atrás dos filhos para
continuar a vida conjugal, apesar dos pesares. E alguns icebergs são capazes de
causar danos muito maiores que os do Titanic, tornando uma grande perda de
tempo qualquer tentativa de reparo, ainda mais usando uma criaturinha indefesa,
que
está ao léu no jogo.
Mais grave que
colocar alguém no mundo com a finalidade de salvar um casamento é o impacto que
as divergências sobre ter ou não filhos podem causar no relacionamento. Como
algumas pessoas são irredutíveis nessa questão, quando não há consenso, a
separação pode ser a melhor saída. E se engana quem pensa que a pressão para
ingressar no mundo das chupetas e mamadeiras vem só das mulheres. Hoje em dia,
é comum que o homem bata o pé por uma família de comercial de margarina – como se ela existisse longe do rótulo do produto. Por outro lado, há uma nova geração de mulheres
priorizando a carreira e, consequentemente, adiando a maternidade (e correndo
contra o relógio biológico) ou até mesmo desistindo dela. Certa vez, deparei-me
com uma poesia cuja autora pareceu-me ferrenhamente contra esse movimento, ao
recomendar que as mulheres não se deixassem “castrar”, para não se tornar
animais somente de prazer. “Empregos fora do lar?”, dizia ela, “és superior
àqueles que procuras imitar; tens o dom divino de ser mãe”. Apesar do belo
discurso, divino ou não, tal dom não coloca pão na mesa de ninguém. Assim
sendo, sortudas são aquelas que possuem condições de conciliar os papéis de
esposa, mãe e profissional.
Apesar de não ter
qualquer afinidade com a maternidade e não acreditar muito na possibilidade de,
um dia, chegar a desenvolvê-la ou querê-la, não pretendo pregar que as mulheres
não devem ter filhos, pois só assim é possível viver e ter liberdade. Menos
ainda, confrontá-la com a máxima de que todo mundo tem que ter filhos, como se
esse fosse o curso natural da vida. Não sou defensora de nenhum dos pontos de
vista, apenas discordo da pressão social que exige que mulheres e homens
plantem suas sementes por aí, para garantir as próximas gerações das famílias, mesmo
contrariando seus mais íntimos desejos. Filhos são para sempre, representam um
caminho sem volta. Portanto, como já foi dito por aí, é preciso fazer um ótimo
trabalho para justificar colocá-los neste mundo.
Considerando os
impactos financeiros e psicológicos (entre outros) que um bebê traz, além dos
diversos ajustes que a rotina acaba demandando, é essencial respeitar o tempo
de cada membro do casal. Se os filhos estão nos planos, tudo bem; contanto que
ninguém queira pisar no acelerador e pressionar a outra parte a tê-los antes da
própria vontade. Só não me venha com o velho papo de querer dar netos aos pais
ou ter alguém que cuide de você na velhice – até porque é grande o risco de as
crianças crescerem e empreenderem fuga do seio familiar –, pois não há motivos
mais falsos que esses para seguir em frente. Pior que isso, só mesmo quem
pretende gerar uma miniatura de si, para alcançar o que não foi capaz e
consertar antigas frustrações. Ao invés de colocar no mundo alguém com uma
responsabilidade inicial tão grande de agradar e ter sucesso, faz muito mais
sentido pensar na conexão emocional criada ao ajudar um filho a crescer e, com
isso, perceber que um novo universo pode ser descoberto.
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