quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O dilema do “temos ou não temos” é o que tememos


A cerveja e a vodca, que antes eram o foco da organização de uma festa de aniversário, são substituídas pelo refrigerante, pelo bolo e pelo brigadeiro. Assim como o rock e outros gêneros de música adulta, que saem de cena para dar lugar à persistente (e ultrapassada) Rainha dos Baixinhos e à endeusada (e não menos persistente) Galinha Pintadinha. Os finais de semana, flexíveis e dedicados ao lazer e ao descanso, de repente dão muito mais trabalho – afinal, os rebentos não estão na escola, mas sim em casa clamando por atenção exclusiva. Ficar na cama até tarde é praticamente impossível e acordar várias vezes durante a noite torna-se comum – resumindo: dormir passa a ser artigo de luxo.

Depois dessa descrição, fica difícil entender por que a maioria das pessoas deseja tanto ter filhos. Eu mesma não sei explicar a razão, provavelmente pela falta de conhecimento sobre este território. O que sei é que muito mais interessante priorizar uma relação sadia, ao invés de focar nos desejos individuais. Sim, todo casal precisa saber separar as peças e manter seu individualismo, para não criar uma relação de dependência com o outro. Sim, é praticamente impossível que todos os sonhos sejam comuns aos dois. Mas é factível estabelecer um equilíbrio entre os desejos do “nós” e do “eu” e construir sonhos comunitários; caso contrário, com um lado pesando mais, alguém acaba pressionado a fazer apenas as vontades do outro – e não é o único a sair perdendo com isso. Por mais clichê que possa parecer, quando ambos aprendem a ceder, é muito mais fácil chegar a um consenso.

Individualismo feminino à parte, já ouvi, de várias mulheres que passaram por isso, que ser mãe é a melhor experiência que alguém pode ter. É  o tal do amor incondicional, de doar um pedaço seu para dar continuidade à família (que, aliás, muitos psicólogos desconfiam existir). Uma amiga me disse que o sorriso de um filho é suficiente para rebater qualquer argumento contra a procriação. Quando a lembrei que, além de dar trabalho, uma criança gera gastos absurdos, ela me disse, metaforicamente, que um carro também incomoda e demanda dinheiro, mas tê-lo oferece benefícios ainda maiores. De outra amiga, ouvi que um filho faz a mulher se sentir mais completa, complementa o casamento e reforça a união do casal. Na minha inexperiente visão, é aí que mora um dos perigos. Na falta de coragem de encarar uma separação depois de ter um terceiro envolvido na história, o casamento pode até se arrastar por mais um tempo, mas no fundo as pessoas sabem que o barco já afundou. Por mais que se escondam atrás dos filhos para continuar a vida conjugal, apesar dos pesares. E alguns icebergs são capazes de causar danos muito maiores que os do Titanic, tornando uma grande perda de tempo qualquer tentativa de reparo, ainda mais usando uma criaturinha indefesa, que está ao léu no jogo.

Mais grave que colocar alguém no mundo com a finalidade de salvar um casamento é o impacto que as divergências sobre ter ou não filhos podem causar no relacionamento. Como algumas pessoas são irredutíveis nessa questão, quando não há consenso, a separação pode ser a melhor saída. E se engana quem pensa que a pressão para ingressar no mundo das chupetas e mamadeiras vem só das mulheres. Hoje em dia, é comum que o homem bata o pé por uma família de comercial de margarina – como se ela existisse longe do rótulo do produto. Por outro lado, há uma nova geração de mulheres priorizando a carreira e, consequentemente, adiando a maternidade (e correndo contra o relógio biológico) ou até mesmo desistindo dela. Certa vez, deparei-me com uma poesia cuja autora pareceu-me ferrenhamente contra esse movimento, ao recomendar que as mulheres não se deixassem “castrar”, para não se tornar animais somente de prazer. “Empregos fora do lar?”, dizia ela, “és superior àqueles que procuras imitar; tens o dom divino de ser mãe”. Apesar do belo discurso, divino ou não, tal dom não coloca pão na mesa de ninguém. Assim sendo, sortudas são aquelas que possuem condições de conciliar os papéis de esposa, mãe e profissional.

Apesar de não ter qualquer afinidade com a maternidade e não acreditar muito na possibilidade de, um dia, chegar a desenvolvê-la ou querê-la, não pretendo pregar que as mulheres não devem ter filhos, pois só assim é possível viver e ter liberdade. Menos ainda, confrontá-la com a máxima de que todo mundo tem que ter filhos, como se esse fosse o curso natural da vida. Não sou defensora de nenhum dos pontos de vista, apenas discordo da pressão social que exige que mulheres e homens plantem suas sementes por aí, para garantir as próximas gerações das famílias, mesmo contrariando seus mais íntimos desejos. Filhos são para sempre, representam um caminho sem volta. Portanto, como já foi dito por aí, é preciso fazer um ótimo trabalho para justificar colocá-los neste mundo.

Considerando os impactos financeiros e psicológicos (entre outros) que um bebê traz, além dos diversos ajustes que a rotina acaba demandando, é essencial respeitar o tempo de cada membro do casal. Se os filhos estão nos planos, tudo bem; contanto que ninguém queira pisar no acelerador e pressionar a outra parte a tê-los antes da própria vontade. Só não me venha com o velho papo de querer dar netos aos pais ou ter alguém que cuide de você na velhice – até porque é grande o risco de as crianças crescerem e empreenderem fuga do seio familiar –, pois não há motivos mais falsos que esses para seguir em frente. Pior que isso, só mesmo quem pretende gerar uma miniatura de si, para alcançar o que não foi capaz e consertar antigas frustrações. Ao invés de colocar no mundo alguém com uma responsabilidade inicial tão grande de agradar e ter sucesso, faz muito mais sentido pensar na conexão emocional criada ao ajudar um filho a crescer e, com isso, perceber que um novo universo pode ser descoberto.

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