segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Do desenrolar dos relacionamentos



“Não tenho culpa deste sol florido, desta chama alucinada, não tenho culpa do meu delírio (...) que turbulência na cabeça, que confusão, quantos cacos, que atropelos na minha língua!”
(Raduan Nassar)

Só de pensar em seu último relacionamento, você é tomada pela ideia de nunca mais se envolver com ninguém. Passar por todos os estágios novamente – da paixão à decepção – não é nada animador, mas surpresas podem acontecer e, quando percebe, está completamente envolvida em uma nova relação. É preciso aceitar que, como qualquer outro projeto, inícios de relacionamento costumam trazer consigo uma série de dúvidas. Será que vai dar certo? Devo estar preparada para o pior? Dessa vez, vai ou racha? Tal angústia é resultado do incerto, daquilo que não se pode prever. Depois de um tempo, tudo pode perder o encanto para aqueles que gostam apenas do novo e da ansiedade trazida por ele.

Conversei com uma amiga que está saindo com o mesmo cara há pouco mais de um mês e ela me disse que passa horas pensando se, uma hora dessas, ele não ficará entediado e fará o famoso N.D. (Número do Desaparecimento). Entendi bem o que quis dizer; afinal, quem nunca passou por isso? Muito empregado pelos homens de todas as idades, religiões e classes sociais, o N.D. consiste, basicamente, em sumir do mapa sem dar qualquer satisfação a quem possa interessar. Como evitá-lo? Se alguém souber, por favor me conte. Da mesma forma que é possível nos sentirmos cansadas de uma pessoa a ponto de cair fora, o excesso de açúcar pode estar na nossa fórmula, fazendo com que nós mesmas sejamos enjoativas ao paladar alheio.   

Mas esta incerteza expressa pela minha amiga não é a única envolvendo as mulheres em início de relacionamento. Outra, muito comum e normalmente fruto da pressão social, está relacionada ao status do mesmo. Certa vez, um autor escreveu que, para que as pessoas se entendam, é preciso que ponham ordem em suas ideias; palavra com palavra. Em tempos de Facebook, situações que não foram definidas com todas as letras podem se tornar um tormento, até que seja dado nome aos bois. É namoro, relacionamento enrolado ou o quê? A quem importa, afinal o conhecimento do status de uma ou outra pessoa? A ninguém, ou melhor, prioritariamente a quem está no relacionamento!

Por outro lado, há quem não se importe com estas denominações e, mais que isso, valorize a vida que leva ao lado de alguém, muito mais que a imagem que passa aos que estão ao redor. O melhor é que, ao optar pela autopreservação, não dá margem a eventuais fofocas e comentários mal intencionados. Entretanto, é preciso tomar cuidado quanto às reais intenções e demandas do outro, para não despender com ele mais consideração que recebe – e não acabar fazendo o papel de Seu Jorge com a Mina do Condomínio.

O lado bom de tantas dúvidas nessa fase inicial é o frio na barriga; aquele que mulheres que estão em longas relações reclamam de ter perdido. Provocado pela ansiedade, é resultado da rápida liberação de adrenalina pelo corpo e, por mais angustiante que possa parecer em alguns momentos, faz falta quando caímos na rotina e não mais sentimos o nostálgico gosto do início. Dá vontade de voltar no tempo, pois não somos mais o que éramos. Mas, se não somos o que éramos, por que a saudade?

E não é apenas o ponto de partida que traz seu lado positivo e negativo; o mesmo ocorre com os relacionamentos consolidados. Entre tantas outras coisas, a parte boa é que ser vista sem maquiagem deixa de ser um pesadelo, pensar tanto antes de falar torna-se desnecessário, as conversas fluem com mais naturalidade e dizer o que gosta sem (e o que não gosta) sem medo de desapontar passa a ser normal. Fica mais fácil acertar no presente em uma ocasião especial, cozinhar deixa de ser uma estratégia para impressionar e dá até para tentar uma receita nova – afinal, se der errado, não será o fim do mundo. Um bom relacionamento rima com conhecimento. E o que pode ser melhor que o tempo para proporcioná-lo? 

Um comentário: