sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Quando um fantasma bate à porta


Relacionamentos sempre deixam marcas e, quando desfeitos, é impossível manter apenas as coisas boas – especialmente quando o fim se dá de forma turbulenta. O tempo de superação varia; o importante é ter humildade para conviver com ele e não tentar contrariar seu fluxo. Levantar após uma queda é algo que todo ser humano aprende, até mesmo pela sua condição altamente adaptável às mais diversas situações. Entretanto, surpresas podem acontecer quando as páginas pareciam estar definitivamente viradas.

Quem nunca passou pela dor do fim com litros de lágrimas derramadas e, depois de dar a volta por cima, se sentiu balançado por fantasmas do passado? Eles podem ser representados por sentimentos – uma desconfiança, uma palavra que soou estranho, uma traição ou até intuição. Mas o mais perturbador dos fantasmas pode, sim, ser alguém de carne e osso. Desde um ex que decide ressurgir das cinzas até aquela paixão platônica que resolve dar alguma esperança.

Não à toa, pessoas procuram se afastar do que lhes remete a lembranças ruins, como tentativa de autodefesa. A estratégia é ainda mais comum após rupturas nas quais alguém sofreu muito até aceitar que não tinha mais jeito. Por isso, amizades com ex não são recomendáveis – não há motivo para guardar rancor, mas bancar o “Best FriendForever” é hipocrisia. Cumprimentar e bater um papo amigável em um encontro casual é suficiente. Até porque, cá entre nós, alguém acredita em términos de comum acordo? Aquela velha história de que “ninguém terminou, a decisão foi mútua” é, no mínimo, duvidosa.

Depois do ponto final, inicia-se uma nova etapa. De um modo geral, mulheres deixam transparecer mais o sofrimento nesta fase. Choram, ouvem músicas deprimentes, devoram caixas de chocolates e enchem os ouvidos das amigas com suas lamúrias. Muitas vezes, forçam a barra irritantemente, por demonstrações de compaixão de pessoas próximas.

Um dia, a nuvem negra vai embora e é hora de tomar novos ares. Ir a bares até então desconhecidos, fazer novos amigos, buscar outras atividades de lazer. O que era apenas uma tentativa de sobrevivência, acaba revelando um doce recomeço. Depois de um tempo de reclusão, o coração parece ávido para bater mais forte por outro alguém, quando de repente... eis que surge a assombração!

Num primeiro momento, é difícil saber como agir. Recomenda-se colocar tudo na balança (o bom e o ruim do relacionamento falido) e analisar se compensa dar outra chance. Um grande erro é dar peso maior ao início da relação, quando tudo parecia perfeito e os problemas sequer haviam dado sinal. É a época em que as máscaras ainda não caíram, as atitudes mais grosseiras não foram tomadas, o respeito não se perdeu. Quando aquele que parecia ser a metadeda laranja ainda não virou suco. Leva-se em conta apenas o ator, cujo personagem interpretado seria compatível aos desejos e necessidades do outro – seria, pois não existe. Ignora-se o que veio depois: as brigas, ofensas e mentiras deslavadas. Será que vale a pena ver de novo?


Em certa ocasião, ouvi dizer que aquele que não morou nunca em seus próprios abismos, nem andou em promiscuidade com seus fantasmas, não será exposto às fraquezas, ao amor ou ao poema. Sim, é fundamental habitar nossos abismos e confrontar nossos fantasmas. Mas é também necessário compreender que a vida é feita de ciclos. Uma hora, é preciso parar de brigar com o passado e aceitar que o ciclo que levou ao abismo chegou ao fim. O que não deu certo uma vez, dificilmente funcionará algum dia. Pessoas não mudam; por mais que prometam se esforçar nesse sentido, sua essência permanecerá. Partindo dessa ideia – já que romances não raramente acabam por cobranças de mudança–, devemos aprender que lamentar uma dor passada no presente é criar outra dor. E sofrer novamente. As palavras de William Shakespeare fazem sentido, não?

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